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Como preferirem

Bom dia, caros amigos. Bem, um dia destes estava ler um texto de alguém que se sentia particularmente incomodado por as empresas e instituições se lhe dirigirem com este caro nas cartas que recebia em casa. Que nunca tinha sequer tomado café com eles para se porem com tantas intimidades. A língua portuguesa juntamente com os portugueses em si pode frequentemente criar uma mistura enervantemente maçadora e picuinhas. Imaginem, na nossa língua tanto podemos dizer é necessário fazermos como é necessário que façamos, o siginificado é igual, no entanto acrescentamos um que e o tempo verbal já muda radicalmente. Só para chatear. Quanto aos portugueses também são particularmente férteis a nível de picuinhice, exemplos não faltam. No que toca a formas de tratamento é o cabo do trabalhos e nem se pode dizer que seja coisa comum das línguas latinas. Se usamos o senhor(a) é porque o senhor está no céu ou me faz sentir muito velho, você nem pensar, esse é o que mais ofende as almas mais sensíveis e puritanas. Dos tempos da estrebaria. Numa dessas entrevistas que se replicaram por aí, o Zé Pedro dizia uma vez a um jornalista “trata-me por tu que o você não é nada rock n’ roll”. Achei piada. Exmº é exagerado. Prezado, estimado, não andei contigo na tropa, dona é a tua tia, somente pelo nome próprio não o conheço de lado nenhum para essas confianças. Não é fácil, missão quase impossível arranjar uma forma que sirva a todos. Melhor é fechar os olhos e escolher uma ao acaso. De qualquer dos modos haverá sempre quem não goste de bacalhau ou de arroz-doce, por isso não vale a pena perder muito tempo com o assunto. Mas atenção àqueles que fazem mesmo questão de ser tratados pelo título. Se colocam engenheiro no cartão do banco ou do Pingo Doce é por alguma coisa. É porque exigem respeitinho. É bonito e eles gostam. Com três letrinhas apenas se difere dos outros e se escreve a palavra Engº. Não omitir também presidente, director, professor e demais pafernália de profissões e dísticos quando os mesmos insistem em alardear tais letreiros. Para tudo o resto doutor, doutora, costuma servir. É carapuça que ninguém parece importar-se muito em enfiar. Pelo contrário, até sabe bem. Se tiverem que pedir alguma coisa ou agilizar algum assunto, doutor, doutora pode ser um bom começo. Doutora, tal como combinado… A probabilidade de vos pegarem de ponta pode assim reduzir-se significativamente. Deixámos de ser um país de analfabetos, para sermos um país em que todos, em algum momento, somos doutores. É o processo mormente referido como doutoramento da sociedade. Todos diferentes, todos doutores. E o princípio é o mesmo desde sempre. Isto é, a formas de tratamento mais refinadas começaram por ser uma forma de se dirigirem aos elementos da família real, vossa senhoria. Com o tempo iam-se difundindo por toda a nobreza, de primeira e de segunda. Arranjava-se outra, vossa alteza. E de cada vez que cada título se vulgarizava e se ia espalhando por ali abaixo, outros se criavam para os reis e mais altos representantes. Vossa majestade. E assim sucessivamente, desciam, banalizavam-se e outros se inventavam. Reparem que os nobres se batiam com unhas e dentes por estas etiquetas. Obviamente significavam estatuto, posição social. Não sei é se se batiam com o mesmo afinco pelo incremento das suas competências individuais, culturais ou socio-profissionais. O foco na forma, no que está por fora, no que enche o ouvido e o egozinho. O tal mesmo princípio que se mantém até hoje. Ao menos uma das coisas que o século XXI mais nos trouxe foi homogeneidade. Todos podem agora com relativa facilidade ser pelo menos doutores. Muito diferente dos tempos da Idade Média, como por exemplo nas nossas aldeias do nordeste há 50 anos atrás, onde apenas alguns poucos podiam aspirar a tão respigados tratamentos. O Bispo era o meu reverendíssimo senhor, os demais sacerdotes também seriam qualquer coisa cheia de “íssimos” e “ências” assim como o professor e talvez o regedor. O resto seriam tios e os demais mancebos, enzoneiros e pantomineiros. Penso eu de que. Sem nenhuns salamaleques, um grande abraço! 

Manuel João Pires