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Comichão e coceira

Meus caros, como têm passado? Espero que essa saúde esteja de ferro. Não vos vou perguntar por magustos porque de castanhas é melhor nem falar este ano. Quer dizer, haver há. Há sempre, de uma maneira ou de outra. Mas este ano não foi nada amigo dos soutos. Por falar em tempo, parece que por aí, embora já tenham caído umas geadas, as temperaturas andam bem amenas. Eu que estou no tropical ando a pingar do nariz há mais de uma semana e vocês aí no temperado-continental em mangas de camisa a desfrutar dos 20 graus ao sol. Nem com músicas e berloques de Natal São Pedro se deixa intimidar. Já vos disse, não duvidem das suas capacidades. Antigamente falar do tempo servia para preencher aqueles silêncios chatos, desemperrar conversas, agora é a conversa toda. Está trocado. O pessoal no elevador “bom dia, esta austeridade no sector privado até entra nos ossos”, “nem diga nada, e diz que para a semana os professores vão voltar a fazer greve a partir de quarta”. “Isto anda tudo mudado, vizinho”. Quando há tempo para se trocar três dedos de conversa, aí sim se fala do tempo, das previsões, das sequelas mais ou menos trágicas, de Setembros e Outubros passados com chuva e frio de rachar ou então com um calor ainda mais desgraçado. Algures entre o isto já não é o que era e o afinal sempre foi assim. Na verdade, os desbloqueadores de conversa estão para ficar. O que antes era acessório agora é o assunto todo, à imagem das comidas que irritam só de olhar, das cervejas caseiras e dos próprios chefes de cozinha. É porque alguém decidiu jantar rodeado de pedras-mármore, porque fulano tomou a liberdade de fazer ninguém sabe bem o quê, mas que é no mínimo revoltante ou porque escreveu uma palavrinha meio desviada sem sequer se dar conta em algum sítio de pouca monta. Esses são os assuntos. Isso é que é matéria para desfiar em conversa séria, fiada e duradoura. Não é somenos, não é o repetitivo chichi-cocó de criança a aprender a falar. É tema nacional e fracturante. É este o epidémcio caminho do vírus da discussão estéril, do debate fugaz cujo Menino Jesus teria confessado não ter interesse absolutamente nenhum, do dedo em riste à procura de bagatelas e insignificâncias para apontar. Vamos Rocinante que aqueles moinhos estão a pedi-las, os bandidos! Não tenho dúvidas de que foi assim que a humanidade avançou ao longo dos tempos. Lembro-me por exemplo de que há uns anos o Bill Clinton se fartou de piadas da sala oval e mandou um par de aviões bombardear o Kosovo para ver se se falava noutra coisa. Agora não seria necessário gastar tanto em gasolina. Podia simplesmente dizer que determinado membro da oposição usou a palavra “mariquinhas” num jantar em que estiveram juntos e que segundo consta nem sequer estavam a falar dos fados da Amália. Ou, inclusive, que tinha visto um dos seus delatores a puxar os bigodes de um gato com particular malícia quando andavam juntos na escola primária. Até porque os políticos, batidos nestas coisas da opinião púbica, prontamente entraram nesta onda do “eh, ele deu um pum” para tornar a política ainda mais apelativa e tragável. Todas estas indignações ejacolectivas e neo-conservadoras surgem e alimentam-se não poucas vezes de quem se considera com a mente muito aberta. Uma abertura que, no entanto, é pouco mais que uma ténue frincha de uma janela encravada virada para as traseiras de algum beco escuro e imundo como os daqueles filmes americanos que dão a partir da uma da manhã. O vírus neo-conservador da mesquinhez pura e enervante no tempo da pós-comunicação global e webcetera está para durar e manifesta-se sempre neste bullying da demagogiazinha socialmente correcta onde o único lado em que se pode alinhar é o da carneirada junto ao brutamontes acéfalo que arrasa e esbofeteia impediosamente todo aquele que não estiver precavido nem souber  jogar este jogo dos tempinhos modernos. A forma mais eficaz de o combater parece-me que seria chamar aquele castigador da parvoíce dos Gato Fedorento que não deixava passar estas situações incólumes e entrava em cena sem dizer palavra para descarregar uma rajada da sua pistola-metralhadora em cima de todo e qualquer oficial da palermice. -“Castigador da parvoíce! Tu aqui? [Acompanhado de uma alegria surpreendido-aparvalhada], logo de seguida rajada em cima e assunto encerrado. Creio que a pistola era nitidamente de plástico, antes que alguém à falta de desbloqueador mais sumarento se ponha com ideias. Seria uma limpeza épica e o ar tornar-se-ia muito mais leve e respirável.

Manuel João Pires