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Com Cidadãos

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Caríssimos, a jornada da castanha já vai findada. Parece que foi bom ano, boas notícias para o Nordeste. Um abraço a todos os que dobraram as costas e picaram os dedos nessa labuta que me é familiar. A todos vós que dais o corpo a esta causa e vendeis a castanha a um euro o quilo para chegar aos supermercados quatro ou cinco vezes mais cara, o meu sentido respeito pelo vosso trabalho. Do modo como esta introdução soou talvez faltasse aqui um “apanhadores de castanhas de todo o mundo trasmontano, uni-vos e fazei (mais) cooperativas para não serdes explorados pelo capital”. Por falar em labuta, em coisas que me são familiares e às quais faço questão de prestar homenagem, hoje vou falar de auxiliares de acção médica. Enquadrando, quando tinha pouco mais de 20 anos e saí da universidade, trabalhei em Lisboa na área da formação profissional, onde dei aulas e privei com diversos tipos de instituições. Trabalhei com o pessoal não-médico (não sei se este epíteto está bem conseguido) dos maiores hospitais de Lisboa. Adquiri uma admiração muito grande por toda esta gente trabalhadora, sobretudo a do IPO. Pessoas que trabalham horas a fio a tratar de outras pessoas em estados vulnerabilíssimos que tornam estas últimas meigas, simpáticas, mas também mal-educadas, execráveis ou violentas. Pessoas que lidam com a morte numa base quase diária. E que têm de o fazer com naturalidade em prol da sua própria saúde. Pessoas com um humor peculiar, um humor contra a morte (binómio de que o Ricardo Araújo Pereira fala com frequência). Pessoas pais e mães de família que têm de ser um pouco de tudo, desde médicos a psicólogos, de confidentes a amigos, muitas vezes a única companhia da solidão e do abandono. Pessoas sem terem propriamente formação para isso, apenas a inigualável formação que a vida dá. Pessoas que para sustentar um pouco melhor a família fazem turnos sobre turnos. Pessoas que se levantam de noite, que passam pela casa vazia de algum velho para lhe prestar cuidados, depois por uma clínica para fazer umas horas e acabam o dia a cumprir o turno no hospital. Mal dormem, mal veem os filhos. A roda-viva nunca pára de rodar e mesmo juntando tudo isso ganham uns troquitos que não são nada por aí além. Pessoas cujo dia-a-dia é lidar com os estados mais extremos e debilitados a que o ser humano pode estar sujeito. Pessoas que fazem um trabalho que ninguém inveja. Pessoas trabalhadoras, cansadas, mas que esboçam sorrisos. Cansadas, mas com histórias de vida. Pessoas que ganham o ordenado mínimo. Num mundo perfeito far-se-ia justiça, numa terra dos sonhos, na do Jorge Palma ou noutra qualquer, o salário destas pessoas nunca se poderia cingir ao mínimo. Pessoas que não fazem parte de hashtags nem do que se discute na Assembleia ou noutro lado qualquer. Pessoas carregadoras de piano, como no futebol, que não se dão por elas mas sem as quais a engrenagem não funciona. Classe trabalhadora discreta, no fim da fila, quase sem voz, quase sem existir.

Em muitos momentos recordo estas pessoas, como faziam, as histórias que me contavam, a força que transpareciam, os seus exemplos. Eu, naquele tempo em casa dos papás, bebia assim ao vivo o que é o meu país e o que são as verdadeiras pessoas que o compõem e no qual se alicerça. Por entre o cheiro a hospital aprendi muito sobre a vida. Creio que não faria mal aos nossos jovens conhecerem estas pessoas, contactarem com estas realidades. Nem aos nossos políticos, nem às pessoas que se creem muito pela futilidade de um título ou de um canudo. Não faria mal a ninguém. Aproveito este modesto espaço de antena para endereçar a todos os auxiliares de acção médica o meu respeito pela vossa profissão, a minha perene admiração pelo vosso exemplo. Sinónimo de trabalho, de perseverança, de como é feita a vida crua das pessoas comuns. Como cidadão, obrigado.

 

* Leitor de Português na Universidade de Sun Yat-sen Cantão Guangdong – China

Manuel João Pires