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Belisário & Marvel

Se fosse realizado um inquérito tendo como alvo a Comunidade Científica e Cultural de Bragança, perguntando-lhe quem foram Belisário e Marvel, seguramente, as respostas seriam: o primeiro ter sido famoso general de Bizâncio, o segundo, cómica figura de uma banda desenhada americana.

Se o mesmo inquérito fosse levado a cabo nos Lares de idosos existentes em Bragança, as respostas seriam completamente diferentes, reinadias até, impregnadas de cordata malícia. Adiante explicarei a razão.

Porque integrado numa equipa multidisciplinar estou a trabalhar num projecto visando a mundialização de um concelho, coube-me a tarefa de potenciar os activos culturais e sociais existentes de modo a conseguir-se o objectivo pretendido.

Nesse propósito, todos os envolvidos no projecto dedicamos atenção à população envelhecida, mesmo a doente, porque é detentora de perenes e formidáveis saberes, especialmente de natureza empírica, os quais não podem ser esquecidos dada a importância da nossa herança cultural, segundo porque as pessoas idosas são muito importantes no acrescentar valor de experiência consolidada aos especialistas académicos e científicos.

E, Belisário e Marvel (pronunciávamos Marbel) surgiram-me na memória (o papel da memória é crucial no âmbito cultural) na justa medida de terem sido figurões da paisagem social bragançana de recorte jocoso, mas a par de outros significantes do modelo e moco como nos idos de cinquenta e sessenta do século transacto os marginalizados às vezes de motu próprio eram tratados. No referido projecto pretende-se recuperar todos quantos vivem situações de sofrimento, miséria, marginalização e doença, cujos custos são enormes debaixo de todos os prismas.

Eu conheci muito mal os ditos figurões, no entanto, o primeiro, revejo-o de grenha suja protegida por boina esburacada, tez arroxeada, nariz em forma de torneira de pipo, voz borras de vinho, curvado, a viver de biscates e da carinhosa caridade sem alarde. Tudo quanto recebia gastava-o alegremente em aguardente e vinho, não apreciava ser censurado, às vezes deixa a ira à solta e regougava palavras frementes contra esta, contra aquele. Ele sabia coisas. Se instado a explicar o dito sussurrava melopeias e desandava.

O Marvel (Marbel) executava tarefas de carrejão a meias com a mula do Sr. Augusto (Má-Cara). A mula puxava a carroça, ele colocava as pernas de alicate num varal e toca a levar e a trazer pacotes da estação de caminho-de-ferro distribuindo-os a seguir pelos clientes regulares e irregulares. O Marvel também usava boia (muito comum na altura mesmo no círculo dos donos de posses), o rosto permanentemente enrugado conferia-lhe peculiar semblante, se o picavam da sua boca saíam rajadas de palavras em consonância, vernáculas de vermelho vivo, muito mais moderadas quando o espevitador do azedume era o Senhor Queiroz, afamado especialista no modo de moer o ânimo mesmo dos mansos e cordatos. Nem as repreensões da Dona Mariazinha moderavam a verve do saudoso comerciante, fervoroso portista, dono de invulgar sentido de humor em todas as circunstâncias.

O Senhor Belisário e o Senhor Marvel nunca tiveram direito a senhoria, era o que fazia falta, diria o menos graduado dos funcionários públicos, não eram lúmpen no sentido marxista do termo, não passavam de membros de uma sociedade onde o preconizado nas obras de misericórdia, só raros cumpriam o preceituado.

No fundo, no fundo, persistia a hipocrisia envernizada, de fora da embirração lustrosa ficavam as Senhoras esmoleres, os Senhores esmoleres (o Sr. Queiroz gostava de azucrinar, também gostava de ajudar) suavizavam o quotidiano de desprovidos de meios, de família consistente, de tolheitos e doentes. Lembro a mulher com o menino ao peito a entrar ali e acolá, salmodiava palavras, levantava o lenço postado sobre a cabeça e exibia pústula disforme. Recolhia a esmola, alisava o lenço e prosseguia a jornada.

As pessoas são o nosso melhor património responderam dezenas de homens e mulheres nos questionários de recolha de informação na preparação do aludido trabalho, tal resposta constituiu forte incentivo a procurarmos requalificar e recuperar os menos preparados, os considerados pesos mortos, fonte de problemas e pesada despesa.

Não tenho dados precisos sobre o Sr. Belisário e o Sr. Marvel, pretendo prestar-lhe melhor atenção. Espero o contributo de quem o quiser dar.

Armando Fernandes