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Amândio & Teófilo

Em sucessivos e vigorosos editoriais o Director deste jornal tem sublinhado a contínua destruição da anima nordestina, clamando pela união das forças interiores no intuito do barramento das águas da normalização rafeira, do atrofiamento dos activos existentes.
Outros articulistas do jornal não se perdem em divagações inúteis relativamente a tão momentoso como velho problema, podemos discordar deste ou daquele pormenor, mas no essencial, o palpável é a defesa do nosso terrunho. O Manuel Vaz Pires escreveu sobre as oportunidades perdidas, eu vou tentar trazer ao de cima virtudes e sabedorias que personifico em Amândio & Teófilo, os dois naturais de Lagarelhos, Vinais.
O primeiro durante largos anos concedeu primazia à execução de trabalho em madeira, não se coibindo de conceber artefactos artesanais (o seu technikos já englobava maquinaria), passada essa fase retomou as práticas ancestrais do cultivo da terra e, num quase acento bíblico. possui um rebanho de sessenta ovelhas.
A multiplicidade de tarefas não o impede de ser a força motriz da Associação Cultural da aldeia daí numa recente troca de jubilosas palavras, enquanto atendia o telemóvel espetou-me: tu que estás mais enfarinhado nessas coisas tens de nos ajudar a encontrar ajudas…
A sensatez dele leva-o a procurar o aglutinamento de esforços no sentido de forma a sua boa vontade não passar disso mesmo.
O Teófilo possui uma empresa de prestação de serviços na área da construção civil, cuja especialização é a de tornar as habitações quentes nos longos Invernos e frescas no Verão. Se recuarmos cinquenta anos surge-nos a lembrança das casas frias, desconfortáveis, de paredes, tabiques e tábuas separadoras dos animais, impregnadas de sujidade apesar da constante actividade dos vassouros, pois as vassouras de piaçaba custavam escudos não existentes nos bolsos das gentes.
Pois bem, o Teófilo consegue a proeza de participar e acompanhar trabalhos de toda a ordem, atender telefonemas, manejar o computador, empenhar-se no arranjo das terras e consequentes labores dai decorrentes. Se for necessário ajuda os vizinhos, poda árvores e ceifa ervas.
Um e o outro participam nas efusivas manifestações de convivialidade. Não se lamuriam, sorriem à vida, a todos, choram quando têm de corar. Corações ao alto!
Os exemplos acima referidos multiplicam-se por todas as aldeias do Nordeste numa persistente manifestação de vitalidade, de saberes empíricos acumulados, de manifestações às vezes residuais é certo de raízes patrimoniais de relevo simbólico e argúcia (repare-se no termo enfarinhado a significar conhecimento/conhecimentos) que além podem (devem) ser lastro auxiliador da recuperação das ditas oportunidades perdidas. Neste pormenor recordo o clássico livro de Peter Lasket O Mundo Que Nós Perdemos.
Nós vivemos tempos difíceis, nós estamos encurralados, as vivências dos Amândios e dos Teófilos podem parecer simplicidades ridículas, não são, eles, apesar de todos os constrangimentos exalam confiança neles próprios, revelam um assumido orgulho naquilo que somos, sem nunca terem lido a Arte de Ser Português agem dentro dos parâmetros de conhecerem intimamente tal arte. E conhecem.
Nós não podemos dar ao luxo de desperdiçar as suas incorporações, não vou dizer como as podemos conservar, digo ser possível coloca-las ao serviço do desenvolvimento do Nordeste na categoria de vigamentos estruturantes.
Os escritos publicados no Nordeste Informativo relativos à província transmontana podem enunciar azedume, angústia, desespero, enfado, desconfiança, até ciúmes, mas mal andam os senhores do mando se não lhes prestarem atenção. Especialmente os apóstolos da regionalização.
Termino a perguntar: como será o Nordeste em 2040?
O futuro prepara-se a tempo e horas.

Armando Fernandes