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A alergia do Taumaturgo

No dia 12 de Junho correspondi a convite da Âncora Editores, apresentei-me na Feira do Livro a fim de participar numa sessão de autógrafos na companhia do meu estimado amigo Paulo Amado director da revista de culto INTER onde escrevo desde o primeiro número. Assinados alguns livros, distribuídos beijos e abraços, o editor insistiu connosco para assistimos à apresentação do livro mais recente de António Monteiro dedicado às amêndoas da sua terra, Moncorvo.

A Feira do Livro no meu entendimento significa Jardim do Paraíso ou das Delícias literárias e afins dado número de obras em exposição, a presença dos cultores da língua na qual expressam sonhos, desejos cordatos ou extravagantes, teorias incluindo as conspirativas, proclamações e sentenças, enfim o referido Paraíso e suas periferias residuais ou remate de presunções ridículas. Entrei no auditório, palavras de cortesia de António Batista Lopes, passando de imediato a palavra ao apresentador da referente a amêndoas cobertas pelas mestras doceiras moncorvenses, que não identifico pois a perspicácia dos leitores o fará num ápice temporal.

O encarregue da tarefa de dissertar acerca do trabalho de António Monteiro, por quatro vezes aludiu à cozinha conventual colocando no alçapão da obscuridade a cozinha monacal (dos Mosteiros tão importantes no estabelecimento de fronteiras e identidades na Antiguidade e Idade Média). Falou de marmelos e marmelada, do pudim Abade de Priscos, no caderno de receitas da mãe, nas mãos de Maria de Lurdes Modesto, disse não ter pruridos em escrever como fala, conseguiu desconsiderar a nossa língua de modo a soltar a ira dos grandes prosadores caso estivessem a ouvir a diatribe, e não conseguiu referir que os «palavrões» inseridos no referido livro serem meros regionalismos tão bem plasmados nos nas suas importantes obras por Aquilino Ribeiro e Tomaz de Figueiredo. Os da língua charra foram pacientemente coligidos pelo escritor e investigador nosso conterrâneo A.M. Pires Cabral, autor de referência no reino maravilhoso e para lá dele.

A errante e caleidoscópica apresentação não passou de auto-elogiosa e rufada a bombo e prato a transmontanice, levou-me a perguntar a razão do esvaziamento da cozinha monacal ao que o falador não respondeu, no entanto, soltou palavras dizendo ser uso o termo conventual englobar os dois conceitos o que é uma redonda regueifa de falácias.

Se assim fosse apagava-se das crónicas e cronicões a formidável alta cozinha dos monges de Alcobaça, ou a do Mosteiro de Santa Maria e Arouca e a da doçaria do meu vizinho Mosteiro de Almoster, bem como de dezenas e dezenas de outros centros irradiadores da Cristandade. Sendo mais radical, tudo quanto emanasse dos mosteiros passava a conventual. Enfim, a asneira não paga imposto, dirão as monjas e monges ainda vivos e a honrarem os seus pergaminhos. Doutores da Igreja e Santos.

Ora, o tropeço deu-se na véspera do dia consagrado ao nosso Doctor Eximius, insigne pensador e pregador, Taumaturgo amigo dos namorados e milagreiro do considerado muito difícil de ser obtido. Confiado nisso pensei que o Santo concederia bom senso, sabedoria e substância ao discurso do dissonante dos mosteiros, engano rotundo. O parente do poeta Alexandre O’Neill revelou alergia a fazer o custoso milagre, preferiu verificar os prelúdios da festa nocturna da sardinha assada, da sangria, do vinho e da cerveja. O querido Santo é sábio não gastando energias em vão, sabe por experiência que quem não consegue acertar o passo não merece desfilar na parada, colar os cacos de uma bilha de descuidadas namoradeiras é fácil, assaz trabalhoso é refrear a tendência niveladora por baixo da presunção estrídula escorada «no deve ser».

Apesar do escusado gasto de energias tive feliz compensação ao encontrar no Auditório um Senhor de Avelanoso leitor deste jornal cujo filho está completar o doutoramento em Pequim, e também colaborador do Nordeste, trocamos pontos de vista e amenidades a apagarem as facécias acima referenciadas. Apesar da alergia do Santo padroeiro de Lisboa, acredito na sua bondade expressa no inopinado encontro.

Tenho esperança de esta crónica ir agradar a fiel leitor de Avelanoso. Espero que sim!

Armando Fernandes