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Agnus comei

Ora boa tarde a todos. Como têm passado? Essa Primavera quase acabada de chegar, a natureza no seu esplendor, tão bom de se ver. Por falar em Primavera ocorre-me falar da celebração que, entre outras coisas, comemora o primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio da Primavera, a Páscoa. Há quem fale de festividades pré-cristãs na sua origem, há quem aponte a herança de uma ceia judaica, que todos os anos lembrava o êxodo dessa comunidade, acolhida nos primeiros anos de Cristianismo. Seja como for, esta coisa de Cristo ter nascido a 25, dia fixo e redondo resvés solstício de Inverno quando mal era conhecido, e de subir aos céus em dias diferentes, umas vezes em Março outras em Abril quando meio mundo o perseguia, às vezes é de deixar uma pessoa meio baralhada. Mas não é de botas e perdigotas de que vos venho falar. Venho falar de tradições. Tradições trasmontanas. Que me lembre este é o período do qual mais tradições recordo. Recuemos uns dias. Carnaval. Segundo os mais velhos havia uma tradição que era fazerem-se os casamentos. A rapaziada juntava-se nessa noite em dois grupos e munida de grandes funis de ferro “casava”, de uma forma tanto ou quanto carnavalesca alguns casais, passem o pleonasmo, da aldeia. Em locais estratégicos, de uma encosta à outra da povoação, para que todos ouvissem, eram anunciados esses inusitados e exagerados matrimónios. A última geração que fez isto foi a de meu irmão, meia dúzia de anos mais velho que eu, depois disso a tradição morreu. Na Páscoa a tradição era os homens na noite de sábado juntarem-se num forno e comerem o cordeiro. Não sei se é preciso o esclarecimento, mas entenda-se forno como o espaço ou divisão (dos que o tinham ou têm) onde se cozia o pão, etc. Comia-se o cordeiro pela noite fora e durante a madrugada ia-se cantar a ressurreição. Tocava-se o sino e cantava-se a ressurreição. Estou a escrever ia-se, mas posso escrever vai-se, porque esta tradição ainda se faz, ainda persiste. Muito menos gente, muito menos vontade de comer, muito menos pela noite fora, mas mais pessoas de todas as idades e mais igualdade de género, o que só prova que as tradições por mais recônditas também se sabem actualizar. Quando eu andava mais por aí ainda se fazia o cordeiro dos solteiros e o dos casados, agora creio que há só um, e a ressurreição não se cantava num ponto só, no adro da igreja parece-me, mas percorria-se a aldeia toda em alegre caminhada e sacra cantoria. Era uma tradição dentro da tradição e servia também como uma espécie de intervalo para desmoer. Depois voltava-se ao forno e atacava-se o cordeiro novamente. Mas havia mais. Fazia-se algo bastante poético que era pôr flores às janelas das raparigas solteiras. Diz que eram coisas mais elaboradas noutros tempos, incluindo vasos e bilhetinhos e tudo, e também com propósitos mais concretos. Houve um ano em que eu e outros ainda chegámos a fazer mas muito mais na desportiva. Creio que na manhã seguinte foi maior a fúria das vizinhas que ficaram com os canteiros semi-destruídos do que propriamente o contentamento das raparigas visadas. Mas fez-se tradição! Agora é mais uma já finada. Em suma, cordeiro e ressurreição lá vão resistindo. Muito devido à teimosia de uma mão cheia de puristas. Flores e casamentos já se perderam. E pronto, é assim a vida, fica o registo, muito bons dias e até amanhã. Ora bem, o que é curioso no meio disto tudo é que segundo sei estas tradições não têm igual mesmo nas aldeias vizinhas. Não se faziam sequer nas localidades próximas, o que demonstra como viviam isoladas e que apesar de haver um contexto sociocultural semelhante, dentro disso cada comunidade desenvolvia os seus próprios hábitos, as suas próprias interpretações e tradições. Quer-me parecer até improvável que não houvesse ou não haja outras aldeias trasmontanas com iguais ou semelhantes tradições, mas sinceramente desconheço. Para mim não pode haver Páscoa sem que se cumpra a noite do cordeiro e oxalá assim seja por muitos e bons anos. Força! Páscoa feliz!

Manuel João Pires