Já lhe disseram que ressona?

Provavelmente conhece alguém que ressona enquanto dorme... ou até você mesmo! Mas já alguma vez se perguntou porquê? Muitas pessoas ressonam, desde miúdos a graúdos, por motivos bem diferentes. Na verdade, estima-se que mais de meio milhão de portugueses ressona durante o sono! Estes são problemas frequentemente ignorados por serem considerados “normais”, mas não há nada de normal em ressonar, acordar cansado ou sentir falta de ar durante o sono! Além disso, podemos estar perante uma perturbação não só para o próprio, mas também para o cônjuge ou familiares, pelo incómodo que pode causar. Nem todos os “ressonares” são iguais, e por detrás desta “orquestra dos roncos” podem encontrar-se doenças que requerem uma abordagem médica adequada.

Porque ressonamos?

O ressonar (vulgarmente conhecido por “ronco”) consiste num ruído inspiratório produzido pela vibração do palato e das paredes da faringe sobre a língua, durante o sono. O esforço exercido na inspiração, enquanto uma pessoa dorme, estreita toda a via aérea superior e dificulta, assim, a passagem do ar em direção aos pulmões. Quando esta passagem se torna difícil, mas, ainda assim, possível, produz-se o ressonar. Os tecidos deixam de ter o oxigénio de que necessitam e isto pode traduzir-se em tensões arteriais altas, açúcar alto no sangue, alterações do humor, sonolência durante o dia e sensação de não se ter dormido o suficiente, mesmo depois de passar demasiadas horas na cama.

 

Quem ressona mais?

Muitas pessoas ressonam, mais homens que mulheres, e sobretudo a partir dos 40 anos de idade. Em muitos casos, não se sabe porque razão se ressona. Noutros casos identifica-se a(s) causa(s). Os principais fatores determinantes são o excesso de peso e a flacidez dos tecidos que compõem a via aérea superior. Esta flacidez é normal e ocorre em todos os indivíduos a partir da quarta década de vida. Isto leva a que haja mais vibração durante o sono e que o ressonar se torne mais incomodativo à medida que a idade vai avançando.

Alguns dos fatores de risco associados ao ressonar incluem:

å Problemas na garganta ou no nariz que dificultam a respiração nasal, como pólipos, desvio do septo nasal ou rinite;

å Aumento do volume das amígdalas e/ou das adenoides, nas crianças;

å Base da língua muito pro­eminente;

å Alterações da anatomia da face, crânio ou pescoço, tais como a retrusão mandibular (“queixo muito recuado”) ou o palato duro em ogiva (“céu da boca muito estreito”)

å Obesidade;

å Refluxo gastroesofágico;

å Refeições muito “pesadas” ao jantar;

å Cansaço extremo;

å Medicamentos (alguns antidepressivos, ansiolíticos ou relaxantes musculares);

å Gravidez (é um ressonar normal, decorrente da congestão nasal por fatores hormonais e do aumento de peso, e que resolve habitualmente após o parto).

 

E a apneia do sono?

O que é?

Ainda que a maior parte dos “roncos” não seja sinónimo de um problema sério, estima-se que cerca de 5% dos casos represente um sintoma da doença conhecida vulgarmente por “apneia do sono”, tecnicamente chamada de Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS). Esta é a forma mais grave do ressonar. No momento em que a passagem de ar se torna tão difícil que o ar não consegue passar ou passa em quantidade muito reduzida, produz-se uma apneia, ou seja, a pessoa para de respirar. Quando estas paragens se tornam muito frequentes durante a noite, estamos perante este SAOS. A apneia do sono caracteriza-se por paragens respiratórias com duração superior a 10 segundos que se repetem durante a noite (as tais “apneias”), e é significativa quando ocorre mais de cinco vezes por hora. Esta perturbação reveste-se de particular importância, não só por fragmentar o sono, mas também pela sua associação a doenças cardiovasculares graves, incluindo arritmias cardíacas, enfarte miocárdio e tromboses cerebrais.

 

O que pode (e deve) fazer se ressonar?

O primeiro passo para diminuir a intensidade e o volume do ressonar passa por adotar medidas de estilo de vida saudável, que pode fazer a custo-zero e que dependem apenas da sua força de vontade:

å Perder peso, evitando o excesso de peso e a obesidade;

å Evitar refeições muito pesadas ao jantar;

å Não fumar, ou deixar de o fazer;

å Não beber bebidas alcoólicas 2-3 horas antes de se deitar;

å Praticar uma atividade física regular não extenuante, sobretudo quando praticada no fim do dia;

å Mude a posição de dormir: dormir “de barriga para cima” aumenta a intensidade do ressonar; se dorme várias vezes nesta posição, tente ir mudando, aos poucos, para uma posição em que durma de lado, com uma ou mais almofadas e não completamente na horizontal.

 

Quando deve recorrer

ao seu médico?

Uma grande parte da população “roncadora” mantém, mesmo adotando as medidas anteriores, um ressonar que, para além de muito incomodativo para o/a companheiro/a, pode constituir um grave problema de saúde. Nesses casos, a observação por um médico torna-se essencial, no sentido de detetar a causa e prosseguir para o tratamento mais adequado. Pode até ser necessário efetuar um estudo do sono (chamado de “polissonografia”) para encontrar a causa desta roncopatia, ou solicitar consulta a especialidades como a pneumologia, neurologia ou otorrinolaringologia. Assim sendo, se continuar a ressonar mesmo seguindo todos os conselhos, deve recorrer ao seu médico, particularmente se:

å Lhe dizem que a sua respiração se interrompe durante o sono e fica sem respirar mais de 10 segundos, e esta situação se repetir durante a noite;

å Se sentir muito sono durante o dia ou adormece enquanto está a ver televisão, a ler, no café ou quando para o carro durante poucos minutos;

å Se dorme mal e está sempre de mau humor, aborrecendo-se sem razão aparente e em qualquer situação;

å Se se sente cansado ou mais triste que o habitual, com dor de cabeça quando se levanta.

 

Não deixa o ressonar avançar!

O (mau) hábito de ressonar pode comprometer dramaticamente a sua qualidade de vida, a nível individual e conjugal, diminuir a sua capacidade de concentração e perturbar o seu desempenho profissional. A irritabilidade, a depressão, os problemas sexuais e de memória, bem como adormecer ao telefone ou ao volante, tornam-se demasiado problemáticos para serem ignorados. Além disso, o perigo das arritmias e ataques cardíacos, e das tromboses cerebrais, associados às formas mais graves de ressonar, são situações que implicam diretamente risco de vida!

Dr. Rui Paulo Magalhães

Médico Interno de MGF

ULS do Nordeste

UCSP Santa Maria 1 - Bragança