“Vivemos um grande exercício de penitência”

Ter, 23/02/2021 - 15:31


O Bispo da Diocese de Bragança-Miranda e presidente da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade, D. José Cordeiro, diz que apesar dos esforços para utilizaras transmissões telemáticas, esta é uma dura prova

Jornal Nordeste (JN) -Vivemos actualmente um período que é o ponto alto da fé Católica, a Quaresma, mas as pessoas estão privadas de irem às cerimónias. Quais as alternativas que a Diocese está a criar?

D. José Cordeiro (JC)- O tempo da Quaresma é um admirável sinal (sacramento) da Igreja, cujo objetivo fundamental é a celebração do mistério pascal. Os dois elementos essenciais são a recordação ou preparação do Batismo e a Penitência. As alternativas são dadas com as transmissões por via telemática, uma solução temporária para os fiéis poderem seguir as celebrações neste tempo extraordinariamente duro. Todavia, a Quaresma-Páscoa é o tempo favorável que nos sugere algum treinamento pessoal e em família de maturação e consciencialização renovar a fé, a esperança e a caridade: a esmola; o jejum; o silêncio; a oração; a penitência; a renúncia quaresmal; a lectio divina; a adoração eucarística; o rosário; a via-sacra…

JN - Como devem os fiéis alimentar a sua fé nestes tempos quando estão privadas do alimento espiri-tual que é a Comunhão? E o sacramento da Confissão?

JC- De facto a participação ativa, plena e consciente na Liturgia da Igreja está posta a dura prova nesta crise pandémica. Quanto ao sacramento da Reconciliação, pode ser celebrado quando solicitado ao sacerdote e sempre mediante todas as medidas sanitárias e de segurança, de modo a salvaguardar o dom sagrado da vida. É um grande exercício de penitência, privarmo-nos de um Bem maior (a celebração comunitária) por outro Bem maior (a vida).

JN - Apesar dos esforços das paróquias em transmitir, através da internet, as missas, há uma parte da população na região, mais envelhecida, que não tem acesso. Que mensagem lhe pode deixar para não se sentirem abandonados?

JC -Sim, estamos bem conscientes da gravidade da situação e sabemos bem que muitos fiéis mais velhos não têm sequer a possibilidade de seguir as celebrações litúrgicas por via telemática. A todos e a cada um manifestamos a nossa proximidade espiritual e pastoral, tanto na oração diária, como na ação da caridade das comunidades cristãs da Diocese.

JN - Que comportamentos devem adoptar as pessoas para não se distanciarem das suas devoções?

JC -Repartir de Jesus Cristo nos caminhos da conversão e da missão neste tempo duro da pandemia e sermos firmes na fé, alegres na esperança e generosos na caridade é o desafio de hoje e de sempre. Por isso, experimento diariamente o que São Paulo disse aos cristãos de Tessalónica: «damos continuamente graças a Deus por todos vós, ao fazermos menção de vós em nossas orações. Recordamos a atividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, na presença de Deus nosso Pai» (1Tes 1, 2).

JN - Pode chamar-se a este tempo o “tempo das trevas” já que as pessoas estão privadas de assistir presencialmente à Eucaristia e receber a Comunhão? Como resistir a este tempo?

JC -Com Esperança e Paciência do coração! A palavra conversão, escutada no contexto da Quaresma, recorda-nos, fundamentalmente, que precisamos de mudar o olhar e as atitudes do coração. A Páscoa é Deus que passa, mas também é o homem que passa, numa relação har-moniosa entre a graça e a liberdade. A conversão não é só um dever, mas é, também, uma possibilidade para todos. Para todos existe a possibilidade da mudança, porque Cristo é a nossa Páscoa e a nossa Paz (cf. 1Cor 5,7).

Jornalista: 
Cátia Barreira