Ter, 27/02/2007 - 10:41
Esta prática de extorsão, a juntar aos frequentes assaltos a estabelecimentos comerciais e a residências particulares, não excluindo o, entre nós, desconhecido roubo por esticão – fenómenos que, num passado recente, só imaginávamos em cidades como o Porto e Lisboa -, é, por mais tranquilizadoras que se apresentem as arengas de quem, na melhor das intenções, nos tenta poupar ao desgosto e à frustração causados por esta realidade, um claro indicador de que o distrito de Bragança, em matéria de segurança e qualidade de vida dos cidadãos – tendo em conta que a primeira condicionante depende da segunda - está longe de ser o invejável paraíso e a mediania dourada de outrora.
Perante a evidência dos factos, é com alguma legitimidade que se pergunta o que tem sido feito para ficarmos a salvo de quem atenta contra a nossa integridade física e os nossos bens patrimoniais.
Em boa verdade, só utopicamente nos pode passar pela cabeça que este problema pode ser minimizado e, até, erradicado, fazendo-se uso dos tradicionais meios que é suposto garantirem a nossa segurança. E porque temos plena consciência de que não pode haver um polícia para cada canto e esquina da cidade, nem um guarda para cada aldeia, é preciso que as nossas autoridades, de uma vez por todas, a nível distrital, implementem medidas capazes de suprir aquilo que humanamente é impossível garantir.
Não obstante estar longe de dominar a área da criminalidade e suas motivações, os imensos casos que vão acontecendo no dia – a – dia permitem-me observar que, no panorama das ditas “condutas desviantes”que resultam nos crimes de usurpação, a variante conto do vigário é possível ser travada, devido à sua especificidade. Ou seja, ao contrário do assalto a uma loja, à mão armada ou através do método por esticão, crimes cujos autores praticamente não se fazem anunciar, não há pré – aviso, no conto do vigário, os meliantes delineiam estratégias de ataque meticulosamente preparadas. Muitas vezes, o tempo que decorre entre a primeira abordagem às presas, até à efectivação do acto, pode ser Outra particularidade deste tipo de crime assenta naquilo a que se costuma denominar por “escolha do alvo – tipo”. Aqui, as vítimas são, regra geral, pessoas que não se conseguem defender, com alguma idade, incautas criaturas que dependem da magra reforma para viver, e residem em meios rurais, expostos, porque praticamente desertos, a todo o tipo de maledicência.
Por estranho que possa parecer, é a própria natureza do transmontano que faz dele uma vítima em potência deste peculiar crime. A solicitude, a afabilidade, o altruísmo, a hospitalidade e a pureza que o caracterizam, a que se lhe agregam certos hábitos profundamente enraizados, e a sustentação da ideia ultrapassada de que “quem desconfia não é fiel”criam o ambiente ideal para que os amigos do alheio possam brindar ao sucesso das suas arremetidas.
Querendo, pois, “quem de direito” encarar este problema com seriedade, a melhor forma de o fazer era, sem dúvida alguma, através de acções conjuntas que envolvessem forças de segurança, Governo Civil, câmaras municipais, bombeiros, juntas de freguesia e outras entidades, promover, junto das populações mais isoladas, iniciativas de carácter pedagógico - preventivo, que tivessem como objectivo a transmissão de regras básicas de comportamento e consequentes mecanismos de auto – defesa.
Temendo que a minha sugestão não seja levada a sério, permito-me revelar aquilo que, de alguma maneira, se considera ser o perfil do burlão e a forma como se movimenta e executa as suas investidas.
Dentro dos vários meios por ele utilizados para seduzir as vítimas, o telefone é o mais prático e funcional. Quando, portanto, se estabelece o primeiro contacto, o farsante, homem ou mulher, de modos aristocráticos e considerável riqueza vocabular, faz-se passar ou por um qualquer funcionário da Portugal Telecom – que, a partir das 5 da tarde, tem a incumbência da fastidiosa missão de publicitar os novos e atractivos tarifários -, ou por um fictício comissionista do Instituto Nacional de Estatística. Em ambos os casos, os burlões tentam obter dos futuros burlados o maior e mais proveitoso número de informação possível, de cujos estereotipados “inquéritos” fazem parte perguntas como “Com quem vive?” ou “a que horas se costuma deitar?”.
Por muito que nos custe aceitar, devemos pensar seriamente alterar a nossa maneira de ser. Devemos sacrificar hábitos que fazem de nós, enquanto representantes e herdeiros duma dada cultura, aquilo que efectivamente somos. Porque julgo ser mais sensato adoptarmos comportamentos que, numa dada circunstância, podem parecer pouco elegantes, mas que não deixarão de ser prudentes e cautelosos, do que partilhar a nossa vida privada com quem, do lado de lá da linha, não nos dá qualquer garantia da sua verdadeira identidade.
Por outras palavras: por detrás dum presunto, dum colchão ou duma viagem de sonho, há sempre uma intenção perversa e pouco escrupulosa da parte do nosso “simpático” interlocutor. Não tenhamos ilusões!


