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A um Adolescente (talvez consciente)

Ter, 06/05/2008 - 11:22


Um dia acorda-se e o abismo é berço E o diabo mais do que um irmão. Todo o desvio tem o seu preço.

Este excerto de um poema de Luísa Neto é bonito, mesmo para lá da verdade que nele existe. Quando o sentido que damos às palavras nos transporta para limites com os quais não criamos laços, é sempre importante descobrirmos o mistério que aí se estende. Quando repetidas, as palavras ganham uma força inexcedível – recriadora – que nos arrasta, com o que elas podem ter de bom ou de mau.
Hoje, durante o dia, ouvi-me repetir que gostar de uma pessoa é dar-lhe toda a liberdade para ela ser cada vez mais aquilo que é. E faz pensar. Sugere a ideia de tolerância e, muito mais inequívoco do que isso, de respeito pelas diferenças do outro. De qualquer um. E, ainda mais do que isso, implica ajudar outra pessoa a conhecer-se a si própria; dar-lhe o tempo e os modos necessários para que cresça na descoberta dos seus caminhos.
Mas essa ajuda não implica deixar o outro por sua conta e risco. Gostar de uma pessoa – de qualquer pessoa – traz consigo o esforço por compreendê-la, sentir-lhe os impulsos, os anseios, os medos, as frustrações que teimam em empurrar-se, e ajudá-la a reinventar-se numa procura de equilíbrio de forças. Porque crescer custa.
Por vezes, o que se nos torna difícil, aquilo que é realmente doloroso e nos faz sentir os dedos dormentes, é a consciência que temos de nós mesmos, a forma como não nos vemos, por muito que julguemos que nos olhamos.
Não acreditas? Quando pensamos em “nós próprios”, vemo-nos como agentes de um processo onde tudo se torna relativo à nossa pessoa e onde as realidades que nos aconchegam são filtradas pelas impressões que os sentimentos nos permitem. Em cada dia, em todos os minutos, estamos tão mergulhados em nós, que perdemos as imagens que projectamos para os outros. Nem nos sentimos expostos ao olhar da nossa verdade, que nos fita de perfil.
Sabes, é na distância que se cria a luz de que é feita a lucidez. Que nos permite olhar muito para dentro de nós, descobrindo os recantos das certezas felizes e as pequenas frinchas onde se escondem as angústias que vão escorrendo devagar na humidade de uma parede que nos pertence. Onde possamos ver “outra pessoa”, um desconhecido que reconheceremos nos gestos familiares desdobrados em ecos insistentes.
Ninguém pára de crescer. Todos somos fios de cabelos, feitos de uma força teimosa. Na tua idade, na minha, ou em qualquer outra. A sério. Os anos só nos fazem ter uma visão mais completa do conjunto, ter acesso a um maior número de peças que podemos dispor consoante o entendimento que formos tendo das regras do nosso jogo.
Olha para ti. Sabes que, depois de anos de alegres evidências e certezas reconfortantes, chegou o momento de te questionares e ficares a ouvir-te de olhos abertos. Habituaste-te a agir segundo o modelo e a imagem que os outros tinham de ti e tudo te parecia fazer sentido. A convicção daquilo que eras dava-te força para continuar a sê-lo com mais força ainda. Mas acabaste por cansar-te de uma situação que já não te dava luta, porque te limitavas a ser aquilo que uns esperavam e que a outros desesperava.
Mudaram-se os tempos e as vontades também já não serão o que foram. Estás mais exigente contigo, o que é bom – porque só assim serás capaz de te saber satisfazer. Não te esqueças de que quanto mais os teus olhos alcançarem, maior será o prazer de o agarrar com as mãos. E essa fragilidade que dizes sentir é o brinde de todo o processo de amadurecimento que faz pôr em causa as estruturas em que ele assenta. E que traduz a ânsia que cresce em ti. E repara que eu digo “ânsia” e não ansiedade. Esta última é uma característica da forma como cresceste e que não poucas vezes te afasta dos outros e de ti. Porque a ansiedade não te dá o tempo e o espaço suficientes para olhares realmente para as coisas e para as pessoas, procurando as perguntas por detrás das respostas.
E acho que tu já percebeste isso. Compreendeste a importância de parar e olhar, não é? Foi o que tu me pediste: que olhasse para ti. E é o que tu deves fazer agora: olhar para ti para poderes olhar por ti.