Ter, 27/02/2007 - 10:42
A única que existe, porque não está condicionada por qualquer elemento exterior. Ou seja: as limitações que devemos enfrentar em cada dia não devem constituir um entrave ao nosso crescimento espiritual. Nada daquilo que consideramos real é permanente. O apego, a ignorância, o orgulho e a ira são a causa do nosso sofrimento crónico. E se esse sofrimento é, naturalmente, indesejado, há que conhecer as formas de o erradicar.
O que é, então, necessário saber? Que a noção de causalidade determina toda a existência. Os pensamentos e as acções negativas produzem resultados e condições negativas, tal como os pensamentos e acções positivas produzem resultados e condições positivas. Desenvolvendo uma profunda crença na lei de causa e efeito, seremos capazes de nos aperceber das motivações dos nossos próprios sofrimentos.
Todos os seres são iguais, no sentido em que todos têm a mesma apetência para desejar a felicidade e a fuga à dor. Por isso, trabalhar apenas para a nossa própria felicidade limita a nossa existência. É necessário alcançar a capacidade de nos apercebermos das aspirações dos outros, para que possamos ajudá-los. Teremos, então, a possibilidade de atingir o estado omnisciente, que constitui a verdadeira clareza de consciência. O nosso espírito deve ser trabalhado, de forma a desenvolver certas qualidades, fazendo desaparecer os impulsos negativos. Nós não existimos separados do resto. Por isso, sentimentos como a inveja e a cobiça, por exemplo, privam-nos de tudo. Privam-nos da nossa alegria, porque nos concentramos no que não temos, e privam-nos do regozijo com o bem-estar alheio, porque alimentamos uma pulsão negativa para com os outros.
E o que é surpreendentemente bom nesta percepção é que ela contraria, de forma simples e eficaz, a vitimização em que frequentemente nos afogamos. Considerar que o que nos sucede de negativo não é uma fatalidade ou uma responsabilidade meramente alheia, mas sim um efeito das nossas atitudes menos positivas, constitui uma espécie de fio de prumo que põe em causa a nossa forma de agir e a nossa interacção com os outros. E esse balanço faz aumentar a nossa liberdade interior, que cresce com o conhecimento de nós próprios.
Diz o Dalai-Lama – chefe espiritual e político do Tibete – que quanto melhor entendermos os ensinamentos budistas (o dharma), mais enfraqueceremos as pulsões negativas, como o orgulho, o ódio, ou a ambição, que tanto sofrimento nos causam.
Em todas as religiões está institucionalizada, “manualizada”, uma forma de conduta que passa, naturalmente, pelo destaque dos valores associados ao bem. Mas o que me parece muito construtivo no Budismo é o facto de – contrariamente à imagem que dele se tem – ser uma tradição espiritual extremamente pragmática, assumindo-se como uma experiência libertadora do indivíduo. O conceito da “culpabilidade”, tão arreigado na civilização judaico-cristã, não tem lugar aqui. É antes substituído por acções remediadoras do mal que tenha sido levado a efeito. A noção de compaixão, incompreendida porque desvirtuada no mundo ocidental, é um princípio base do Budismo. É considerar o outro tão importante e tão digno de ser feliz como eu. Em termos práticos, essa ideia traduz-se no desejo de ajudar os outros, para que se libertem do sofrimento.
Assim, é tão digno da minha compaixão aquele que sofre como o que faz sofrer, já que este – pela sua atitude – estará a criar as condições causadoras do seu sofrimento futuro. Através da noção de causalidade.
O princípio de dar, bem-vindo em todos os credos e civilizações, assume no Budismo uma nova acepção. Expressões como “dar o troco” ou “dar o braço a torcer” perdem o seu sentido. A acção de dar surge como forma de levar ao desprendimento e à alegria, desarmando toda e qualquer agressão, ira ou indiferença entre adversários. Dar a vitória ao inimigo, por exemplo, que soa a aberrante num mundo onde a competitividade fervilha, desencadeia circunstâncias extremamente positivas. Para além de desarmar o dito inimigo (e esta é a minha interpretação “ocidental” da questão), é possível apercebermo-nos de que esse obstáculo faz com que o nosso apego – a ira e o orgulho – caia por terra. Criando-se as condições que possibilitam, assim, a nossa libertação das ilusões e forças negativas.
“O esforço é o estado mental que se delicia com as acções virtuosas”, diz o Dalai-Lama.


