“A pandemia acaba quando abrirem as discotecas”

Ter, 06/04/2021 - 11:32


Telmo Garcia tem 47 anos e foi com pouco mais de 30 que ajudou a noite de Bragança a ganhar outra vida. O empresário nasceu em Angola, mas diz-se um “filho” da capital de distrito, já que para ela se mudou ainda em “miúdo”. Através do que viu e conheceu em algumas viagens e até mesmo durante a vida académica, no Porto, decidiu dar um contributo a Bragança. Percebendo que a cidade tinha “potencial” para ter uma “casa a sério”, arregaçou as mangas, uns anos após se formar, e abriu portas ao mítico Mercado Club, o primeiro projecto.

As discotecas estão encerradas há mais de um ano, como é que tem sido?

Foi um ano à imagem do país, um ano de desgraça propriamente dita. Não há muito mais a dizer. Estamos privados de fazer aquilo que mais gostamos e os nossos clientes estão também privados de poder usufruir da diversão, que tanto gostam. Têm-no manifestado através das redes sociais e pessoalmente. Tudo isto já ultrapassou a Covid-19. As pessoas estão a entrar noutra doença, todos nós estamos estamos a ficar um pouco deprimidos, cansados e saturados. Deixando de lado a parte empresarial, eu próprio sinto imensas saudades. Parecemos umas máquinas formatadas para nos levantar e levar uma vida controlada. Isto torna-se insuportável.

Quando tudo voltar à normalidade e se abrirem as portas das discotecas, os clientes vão regressar em força e sem medo?

As opiniões, falando em relação aos meus colegas, não são unânimes. Há aqueles mais pessimistas, que pensam que os hábitos se perderam. Eu estou completamente em desacordo com isso pois assim que o Governo abre uma pequena brecha, a população faz logo o dobro daquilo que é permitido, até por abuso. Ainda no outro dia, em off, alguém do Governo nos disse que a pandemia acaba quando abrirem as discotecas. Portanto, é evidente que as discotecas, de facto, só vão abrir quando houver um controlo total e não existirem dúvidas acerca da Covid-19. O dia em que o Governo permitir a abertura das discotecas, as pessoas podem estar perfeitamente tranquilas de que poderão frequentar os espaços com segurança. Quero crer que as pessoas estão ansiosas que isso aconteça e não veem a hora de poder voltar a divertir-se e esquecer este pesadelo.

Mas já há datas pensadas para a reabertura?

O Governo continua, como se costuma dizer, a navegar à vista. À medida que as coisas vão acontecendo eles vão decidindo. Em relação às discotecas não há nada, não se fala. De qualquer forma, vão dizer o quê, se nem eles próprios sabem de nada? Está tudo dependente da vacinação e da imunidade de grupo que se quer atingir. Muito sinceramente, sendo já optimista, não acredito que vamos ter as discotecas a funcionar antes do fim do Verão, mas estou preparado para abrir já amanhã, se for o caso.

Quanto dinheiro já perdeu por ter os três espaços encerrados há mais de um ano, sendo que é preciso continuar a suportar as despesas?

Eu não posso pensar naquilo que podia ter ganho. Só vejo aquilo que já me saiu do banco e já não andará longe dos 150 mil euros. Ainda assim, o Governo tem dado alguma ajuda. Tenho que dar a mão à palmatória e afirmar que nos tem chegado apoio. Não posso dizer que aquilo que nos chegou dá para cobrir o que já foi gasto, mas, muito sinceramente, foi uma ajuda substancial, que nos dá ânimo para abrir as portas com mais tranquilidade, quando for o caso. Com tantos outros espaços, restaurantes e comércio, de facto, penso como é que o Governo faz para chegar a todos. Os próprios funcionários estavam a ser suportados, a 30%, por nós e agora é o Estado que suporta os salários na totalidade. É preciso reconhecer que o Governo tem estado a fazer alguma coisa. Eu tenho visto que em Espanha, por exemplo, nesse aspecto, no nosso sector, não há grandes ajudas, não há nada. Temos reunido com o Governo, que tem estado receptivo, já que este problema não é comum aos outros sectores, pois não há muitos que estejam sem trabalhar há um ano. É preciso deixar assente que já houve pequenas grandes ajudas, permitindo que, quando se der a reabertura, não estejamos de calças nas mãos, como se costuma dizer. Se assim não fosse era muito mau, já que é sempre preciso dinheiro para se iniciar, para se lançarem festas. Penso que, se Deus quiser, isso não vai acontecer. Se a pandemia se voltar a agravar e se estivermos mais um ano a penar, acho que conseguiremos aguentar, caso o Governo mantenha as ajudas que têm sido agora dadas.

Alguma das três discotecas corre risco de encerrar portas?

Não. Todas elas são da mesma empresa. É uma única empresa que tem o controlo das três. Portanto, não há uma pior ou outra melhor. Neste momento, a empresa está saudável e, enquanto estiver, as três discotecas estão bem. Quando uma estiver mal, as outras de certeza que também estarão. Não há discriminação entre casas. É um grupo de investimento e tanto podia ser uma, como três, como dez.

Quantos funcionários tem neste momento? Houve necessidade de se despedir algum?

Não, nunca despedi nenhum deles, até porque as ajudas que nos estão agora a ser dadas estabelecem como obrigatoriedade a manutenção dos postos de trabalho. Eu tinha dez funcionários e, neste momento, estou com oito. Os dois que saíram fizeram-no por vontade própria, com imensa pena minha. Foram pessoas que se sentiram mal com esta situação de estar em casa sem fazer nada e decidiram abraçar outros projectos, noutros ramos de actividade completamente diferentes. Seguiram outros caminhos e a pandemia, parece-me que, precipitou a decisão de mudar de vida. Não mandei ninguém embora e, se pudesse, também não o faria, porque são pessoas que trabalham comigo há já alguns anos. São pessoas que necessito e quando abrir quero ter os melhores comigo.

Quando abrir novamente será difícil recuperar o que se perdeu?

O futuro, como se costuma dizer, a Deus pertence. Eu não tenho nenhuma bola de cristal para prever aquilo que poderá acontecer. O que é certo é que o meu espírito de empresário me diz que as pessoas querem sair e que vai haver um boom muito grande nos primeiros dois anos. Eu não sei se este tempo será necessário para recuperar o que se perdeu, mas, o facto é que, as casas não crescem. Elas têm uma determinada capacidade e um espaço que leva 500 pessoas não pode, do nada, começar a levar mil. Acredito que se vá trabalhar muito bem e isso é o que importa. Não estou muito preocupado em ir buscar o que se perdeu. Haja saúde, que os clientes regressem com alegria, que as casas se encham e que se esqueça rapidamente o que aconteceu. Quando fechei estava em alta, as casas estavam a trabalhar muito bem. É assim que quero reabrir. O que passou, passou.

Esquecendo a pandemia, como tem sido a experiência de ser um empresário da noite?

Tive duas formas de trabalhar na noite. Tive uma forma em que me envolvi muito, estava sempre presente, apaixonado... era um empresário cliente. Dançava na pista, à frente da cabine, vivi aquilo como se fosse um verdadeiro cliente, com alguma paixão. Faço as casas de forma a sentir-me bem nelas. Essa foi a minha primeira envolvência, no começo, até altas horas. Contudo, para sermos a cara de uma casa, temos que ter sempre aquela determinada alegria e boa onda. Num determinado momento, achei que já não seria tão útil enquanto essa pessoa, mas sim noutra posição, mais atrás, na gestão, onde afinal de contas sempre estive. Acabei por passar um bocado a pasta a gerentes. Vou frequentando como cliente, mas o proprietário que vai todos os dias já não sou eu. O estar por fora abre- -me mais os olhos para outro tipo de gestão e não se comete tanto outros erros.

Este é o negócio da sua vida?

Este é o meu negócio, os outros são partilhados ou de família e esta empresa é minha e do meu irmão, que não está cá actualmente. Este é o negócio que me preenche totalmente, é por isso que quero tanto que cresça e não, não quero ficar por aqui.

Jornalista: 
Carina Alves