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A Palavra e a Vontade

Ter, 11/03/2008 - 12:08


João Batista Veloso, o senhor “Cachimbo” se ainda estivesse entre nós, faria 91 anos de idade no próximo mês de Agosto. Esta figura, como muitas outras figuras que marcaram tempos passados da nossa cidade e, posso dizer sem medo de errar, de todo o distrito, merece uma homenagem. Aqui a deixo, simples e sincera, humilde e honesta, já que assim devem ser as homenagens de pessoas como nós que lutam dia a dia pela sua sobrevivência e dos seus. O talho Cachimbo nasceu com o antigo Mercado Municipal de Bragança, na Praça Camões. O João começou a trabalhar no talho dos pais, João Batista Veloso e Rosa Joaquina Barata, com catorze anos e só parou quando se reformou.

Teve uma vida cheia e dele se contam muitas histórias, a começar pelas alcunhas com que o baptizaram: “Cachimbo”, os da cidade; “Cabeça de Pau”, os das aldeias.
São lendárias as suas idas à feira de Paredes, quando alugava o comboio (nessa altura tínhamos comboio e carruagens apetrechadas para o transporte dos animais) para trazer as reses que lá ia comprar e com as quais abastecia os talhos de Bragança. Ou a ansiedade com que o aguardavam nas feiras de Bragança, que tinham lugar no Toural, junto à Capela do Santo António, os nossos agricultores que aqui traziam os seus animais para venda e que segundo o neto César e o sobrinho António, anunciava a sua chegada com duas assobiadelas muito características. E, como eram outros tempos, mandava o neto ao Banco de Portugal buscar um manhuço de notas de vinte, com as quais pagava as rezes aos lavradores que as voltavam a levar para casa onde cuidavam delas até que as fosse ou mandasse buscar. Naquele tempo era preciso alugar a carrinha do Fernando “Catorze” para transportar os animais das diversas aldeias onde as havia comprado até Bragança.
A maneira como comemorava o Carnaval nos seus tempos de juventude juntamente com o Gonçalves, de alcunha o “Gigantone”, ainda perdura na mente de alguns: juntavam-se os dois, junto ao Cruzeiro, na Praça da Sé, e desatavam a cantar o fado.
A forma exemplar como sempre assistiu aos jogos do Grupo Desportivo de Bragança, o seu amado GDB, com a sua bandeira que desfraldava e agitava durante todo o jogo e nunca se lhe ouviu uma palavra menos correcta ou grosseira, nem contra os árbitros, nem contra nenhum dos elementos das duas equipas em confronto. Apenas se lhe ouvia “Bragança… Bragança… Bragança…”. Muitas vezes me confidenciou a sua admiração pelo meu irmão Tóje Cepeda enquanto treinador do Desportivo.
Falámos muitas vezes e sempre admirei a sua figura marcante. Viu-nos crescer, a mim a aos meus irmãos, já que os meus pais tinham uma banca de peixe no Mercado. Os tempos passados no antigo Mercado Municipal não foram tempos fáceis para os meus pais e para tantos outros que ali lutavam todos os dias por uma vida melhor.
A fachada do talho do senhor “Cachimbo”, que a câmara conservou felizmente, sempre me encantou. Tanto assim que pedi ao meu amigo Jorge Morais uma fotografia do mesmo para a contracapa do meu livro “Clube de Bragança” e ela lá está a recordar tempos idos.
Em textos anteriores, publicados neste jornal, tenho sugerido que se dê outro uso ao espaço antes ocupado pelo dito estabelecimento na Praça Camões. Esta praça, pesem embora todos os problemas surgidos depois da sua requalificação, ficou sem vida, sem risos, sem pregões, sem cor, sem alma; é tempo de lhe restituir algum calor humano e nada melhor do que permitir a instalação de pequenas tascas onde apenas se vendam produtos típicos da região, desde o pão até ao botelo com cascas e, porque não, um restaurante alternativo, vegetariano-macrobiótico? Nada melhor para preservar a memória do que dar a este espaço o nome “Cachimbo”.
Esta quase dinastia de talhantes iniciada em 1906 não acabou com a morte do senhor “Cachimbo”. Tem continuidade no seu neto César que por sua vez me confidenciou querer continuar, também, com um neto seu, no novo talho Cachimbo no actual Mercado Municipal.
Apenas como mais uma sugestão, poder-se-ia dar o seu nome a uma das ruas do Bairro dos Batocos. Enfim, uma pequena homenagem, mais um passeio sobre a vida e sobre os homens de outros tempos, que apesar de estarem tão próximos estão tão distantes nesta nova forma de vida que nos cabe viver actualmente.

Marcolino Cepeda