Ter, 08/05/2007 - 10:46
A decisão pela Ota afigurava-se, ao tempo, como melhor decisão ambiental e como melhor decisão para o interesse geral do país. Estes dois elementos nunca foram, até há dois meses, contestados. Apenas havia um movimento contra a construção de um novo aeroporto por ser uma obra muito cara.
O próprio Durão Barroso, na campanha para as Legislativas de 2002 afirmava que, «enquanto houvesse pobreza, insucesso escolar, tanta falta de estrutura de saúde e tanta falta de apoio aos idosos» o aeroporto não se faria por ser demasiado caro. Mas, a meio do mandato, e antes de ser recrutado para Presidente da União Europeia, afirmou ser necessário um novo aeroporto e chegou a anunciar a preparação da sua adjudicação. No entanto, nem ele nem o Governo seguinte, presidido por Santana Lopes nem, até ao momento, o actual, de base socialista, presidido por José Sócrates, adjudicaram a construção do novo aeroporto.
Parece embruxado o novo aeroporto de Portugal. A sua necessidade já foi sentida no tempo em que os políticos pensavam a sério nos problemas do país. Os primeiros estudos datam de 1969 e, provavelmente, o novo aeroporto já estaria construído se não tivesse havido 25 de Abril. Por isso, não entendo a contestação à necessidade de um novo aeroporto.
Mas já entendo a contestação à sua localização na Ota. Tal contestação não vai no sentido da salvaguarda dos interesses do país mas sim no sentido da luta de interesses particulares, os quais estão envoltos em vários mascaramentos.
O primeiro mascaramento é o da ingenuidade, derivada da ignorância. Segundo ela, não é necessário um novo aeroporto, é muito caro e fica muito longe de Lisboa. Sobre a necessidade, já disse atrás; sobre o ser caro, direi que um aeroporto nacional, hoje, se faz a custo zero; e sobre a distância, também já disse que Rio Frio fica a 45 kms do centro de Lisboa.
O segundo mascaramento só abona em desfavor da nossa Força Aérea. Então só descobriram sete anos depois, ainda por cima com o envolvimento do Presidente da República, que as pistas da Ota têm a mesma rota que as da Base Aérea de Monte Real, a qual ainda fica a 70 Kms daquela? Se isto tivesse razão de ser, como geririam os franceses os aeroportos Charles de Gaulle e Orly, com Le Bourget, no meio de Paris, atravessado entre os dois anteriores?
O terceiro mascaramento é o dos problemas ambientais. Eles foram estudados ao tempo (1998) e a Ota colheu o parecer mais favorável de todas as organizações ecologistas, relativamente a Rio Frio.
Mas surgiu agora um novo mascaramento que é o do preço. Não se sabe quanto custará a Ota e um aeroporto a Sul ficará muito mais barato (ficará?) por não ser necessário derrubar montes nem desviar ribeiras.
Todos estes mascaramentos pretendem encobrir dois tipos de interesses: 1) os imobiliários e turísticos, previstos para a zona norte da Península de Setúbal; 2) o fito das elites de Lisboa em destruírem o Centro e Norte do país, aliando-se a Espanha, através do Alqueva, do Porto de Sines, do TGV.
Só que, se a Base Aérea de Beja, próxima de Alqueva, está a ser transformada em aeroporto civil, essencialmente com fins turísticos, não se entendem dois aeroportos separados por 100 kms! E muito menos se entende que se desprotejam as Regiões Norte e Centro desta forma.
Pode ser que haja obstáculos que eu ainda não conheça à construção do aeroporto na Ota. Não parece, no entanto. Mas o que já conheço, e que expus, milita contra o interesse geral do país.
No entanto, não acredito que o governo do PS adjudique o aeroporto na Ota. Em democracia, os poderes políticos são demasiado dependentes dos poderes económicos. Então em países pouco desenvolvidos, é obra! Acho é que as Regiões Centro e Norte do país (a Região centro já se manifestou, através da Associação de Municípios do Oeste) devem começar a organizar-se para lutar contra a «cultura sulista, elitista» (Luís Filipe Meneses, 1995) e, acrescento eu, irresponsável vendedora de Portugal a Espanha.
Hoje, o maior desígnio dos portugueses deve ser voltar a arrasar todos os «Miguéis de Vasconcelos». Para isso, é necessário um aeroporto bem a norte de Lisboa.
Henrique Ferreira


