Ter, 22/05/2007 - 11:45
O antigo modelo, sustentado pelo argumento da tradição, é aquele em que a generalidade dos bragançanos mais se revê. Que é, por sinal, o que mais se enquadra na própria original da palavra Feira; que, provindo do latim, sob a forma Feria, significa dia de festa. Pelo que os ambientes de festa se caracterizam não pela dispersão do povo, como agora acontece, mas pela sua concentração, num saudável ritual de “pisa aqui”, “empurra ali”; em que, não raras vezes, dentro deste folguedo colectivo, há sempre lugar à suprema satisfação do reencontro com velhos amigos.
À semelhança do que tem acontecido com a Feira das Cantarinhas, também as Festas da Cidade, que tiveram sempre como palco a mítica Praça da Sé e a Avenida João da Cruz, foram transferidas, por ordem e vontade camarária, ainda que ao arrepio da maioria dos munícipes, para o Parque Eixo Atlântico.
Como é público, o centro histórico de Bragança, ao abrigo do Programa Polis, foi recentemente objecto de profundas obras de requalificação. A ideia era – outra coisa não se esperaria – dar vida, dinamizar a mais emblemática zona da cidade. O que todos nós pensávamos era que daquela intervenção, que durou fastidiosos e prolongados meses, saísse uma obra esplendorosa, que conciliasse o último grito da engenharia e da arquitectura com a rusticidade original. Mas, para espanto de todos, o que dali saiu foi nada mais, nada menos do que um projecto faraónico, em termos de custo, dum indescritível mau gosto, que tem como agravante a pouca funcionalidade: não há estacionamentos, porque as ruas encolheram para se justificar a importância do parque subterrâneo construído – coisa que para a nossa ruralidade, se o espaço existente for bem gerido, não faz sentido; nos passeios, onde quase ninguém se passeia, “semearam” umas ridículas bolas e uns pinos de ferro, para os transeuntes esfregarem lá as canelas.
Ao lado das questões da tradição e das memórias, levanta-se, num grau necessariamente diverso, mas não menos preocupante, outro tipo de problemas. O que se esperava vir a contribuir para dar vida à zona nobre da cidade, redundou num total falhanço, com enormes prejuízos para quem ali tem casas comerciais abertas. As ruas, de Verão e de Inverno, de dia e à noite, estão completamente às moscas, porque os potenciais clientes, os que, desde sempre, se habituaram ao dinamismo daquele atractivo espaço, confrontam-se com o impensável obstáculo provocado pela falta de estacionamento e pelos problemas de mobilidade inerentes.
Há, também, a par da polémica suscitada em torno do local escolhido para a realização dos dois eventos atrás referidos, uma outra controvérsia em relação à inoportuna e inconsciente decisão de requalificar tanto a Avenida do Sabor, como a Avenida João da Cruz – autênticos símbolos da cidade, que a consciência colectiva jamais consegue apagar.
Quer um, quer outro projecto – o primeiro já em curso há demasiado tempo, e sem fim à vista -, apenas têm como propósito descaracterizar e adulterar a paisagem urbana, porque a ofuscada consciência de quem os concebeu não lhe permite reconhecer a barbaridade cometida; e, por outro lado, ao contrário do que acontece com os bolsos duma grande percentagem dos cidadãos deste país, eles (projectos) só acontecem, só são explicáveis, devido a uma situação de desafogo financeiro da autarquia, o que permite se esbanje o vil metal.
Uma outra explicação para se pôr em causa o valor patrimonial da cidade, esse legado sem preço, é a ideia tacanhamente errada de que os turistas se sentem atraídos pelos megalómanos túneis, pelos extravagantes espelhos d`água e pelos magnificentes centros de arte moderna. Pelo contrário, quem pretender visitar esta futura reserva de índios – que é para onde caminha todo o distrito -, sentir-se-á fascinado, como costuma sustentar, nas suas públicas intervenções, sempre que o tema vem à baila, o pertinente Dr. Arnaldo Cadavez, pela invejada qualidade que (ainda) proporciona, e por tudo aquilo que ela tem de específico, ou seja, a sua genuinidade.
Mas enquanto as prioridades continuarem a ser as do betão, certamente aquelas que, para bem e para o mal, deixam a marca indelével da passagem, questões como o ambiente e a segurança dos munícipes – temas da modernidade, e que não deixam de ser, também eles, símbolos de Bragança e dos bragançanos -, continuarão a ser relegados para planos secundários. Apesar de há muito se identificar este problema, que denigre a imagem da cidade, a verdade é que os cães errantes continuam a tomar conta da cidade, o novo – riquismo canino, com ampla expansão, continua a exibir-se, impunemente, num total desrespeito para com os demais, e, não menos vergonhoso, o comportamento deplorável de quem faz uso pocilgueiro dos contentores do lixo.
É evidente que as medidas repressivas podem custar, para quem tem a coragem das implementar, sentimentos de inimizade, olhares transviados e, a pior das consequências, os preciosos votos. No entanto, é um risco que se deve correr, se tivermos em conta que, por esta via, o fruto a colher pode ser o de despertar para a consciência cívica e para a cidadania.



