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Nota Hospitalar

Ter, 08/01/2008 - 10:53


Sem fazer referência a qualquer nome, não por recear dissabores causados pela frontalidade, mas por uma questão de fidelidade a um princípio que me parece eticamente correcto, não posso deixar de comentar, nesta espaço, um episódio recente, protagonizado por uma dada pessoa, no exercício das suas funções, com ligação laboral ao Hospital de Bragança.

Um amigo meu deu entrada nesta unidade hospitalar, por aparente suspeita, segundo os sintomas revelados, de problemas cardíacos. Depois de ser submetido aos habituais exames médicos, aguardou, juntamente com a esposa, o resultado dos mesmos. Ora, estes momentos, quer para os pacientes, quer para os familiares, são de uma tensão e nervosismo muito grandes, porque se tem consciência de que o pior pode acontecer. Foi precisamente neste contexto que paciente e esposa, não obstante o médico incumbido do caso lhes ter dito, com base nos resultados das análises efectuadas, que estava tudo bem, traídos pela curiosidade, cometeram a “imprudência” de dar uma espreitadela no processo individual do doente, colocado em cima da maca, em pleno corredor do hospital.
Este gesto, puramente inconsciente, porquanto não estava em causa desautorizar quem quer que fosse, valeu aos dois um tremendo raspanete, em termos que roçavam a deselegância, dado por uma pessoa afecta à instituição, porque, segundo a mesma, era expressamente proibido mexer no dito. A esposa, perante o despropósito e o injustificado acto, pediu-lhe para se identificar. A senhora, provavelmente habituada à subserviência dos enfermos e seus familiares, na posse de uma estranha autoridade que ninguém lhe conferiu nem reconhece, lembra-se de requisitar os serviços do Segurança para a pôr na rua.
Não sei o que se passou naquele dia, àquela hora, naquele corredor. Mas asseguro que a minha amiga, que, na circunstância, devia estar a passar um mau bocado, era incapaz de ter uma atitude que justificasse aquilo que só acontece em casos extremos. Ora, uma pessoa de bem, como é o caso, psicologicamente fragilizada pela situação que estava a viver, passar pela humilhação de ser expulsa, como se de uma delinquente se tratasse, não pode experimentar outro sentimento senão o de uma profunda revolta.
Vendo as coisas pelo prisma da razoabilidade - tendo em conta, naturalmente, que o exercício da medicina, extensível, é claro, à classe dos enfermeiros e dos paramédicos, não se esgota na mera prescrição de medicamentos nem na administração de injecções, pelo que se complementa com atitudes de tolerância, com palavras de conforto e gestos de ternura para quem está numa situação de desvantagem e debilidade -, se há alguém que possamos considerar em incumprimento, segundo o Código de Processo Administrativo, esse alguém é precisamente a servidora do Estado em causa. Ou seja, se o procedimento da minha amiga e do marido fosse contra as normas estatuídas – o que parece não ser - , a culpa do seu “atrevimento” seria de quem tinha o processo à sua “responsabilidade”, por incorrer numa situação de negligência. Assim, a confirmar-se que o dossier do doente é um documento sigiloso, confidencial, esta funcionária hospitalar, dando um tiro no próprio pé, podia estar sujeita a um processo disciplinar.
A minha sensibilidade para com este caso, que me leva a reprovar a atitude desta figura, não é apenas explicada pela proximidade afectiva que me liga aos ofendidos, mas porque o mesmo me faz lembrar um episódio que teve lugar neste mesmo hospital, já lá vão uns bons meses. Se, na ocasião, tivesse acreditado na mensagem do aforismo “a curiosidade matou o gato”, não teria evitado uma situação que, com toda a certeza, descambaria em tragédia. Caso para dizer: em boa hora perverti as regras.

N.B: Devo dizer, contudo, que a imagem da instituição “hospital” e o bom – nome de quem lá trabalha em nada fica beliscada: primeiro, por se tratar de um caso isolado. Segundo, porque, na sequência da queixa formal apresentada contra a pessoa em questão, a responsável pelo Gabinete do Utente, em nome da Administração, teve o gesto nobre e digno de apresentar desculpas aos lesados.