Ter, 29/05/2007 - 10:51
A transmontaneidade tinha destas coisas. Os encontros faziam-se na cozinha, o lar estava junto à lareira. E qualquer deslocação para outro espaço menos familiarizante era reservado a dias de uma festa que, invariavelmente, acabaria por ter a cozinha como destino certo. Enquanto isso, do outro lado da casa, na sala ignorada, os naperons em cima dos aparadores iam mirrando devagarinho pelo pó da indiferença. E as loiças melhores, inúteis no seu papel de existir, murchavam como flores por regar e por olhar.
Ora, Bragança, apesar do seu epíteto – para consumo interno – de cidade atractivada e modernizada, vai revelando algum espírito tradicionalista, esperável, afinal, numa capital de um distrito interiorizado. Continuando a funcionalizar essa grande cozinha que tem o nome de Eixo Atlântico. Superando as suas valências de parque infantil, desportivo e lúdico. E fazendo desse deserto de pedra polida um espaço para cozinhar toda a obra, evento, certame ou acontecimento.
Enquanto isso, no coração da cidade, a nova sala, conhecida por Praça Camões, ficou-se, apenas, por ser um espaço sem sombra de sombras. Como um palanque granítico ao jeito de qualquer monumento sem outra finalidade que a de lembrar vagamente algum feito ou acontecimento esquecido nas passadas rápidas de quem por ali passa a caminho da Biblioteca Municipal ou de qualquer outro destino de letras menos redondas.
É que exceptuando a cerimónia da sua inauguração, em 10 de Junho de 2004 – e os locais não existem para ser inaugurados – os desígnios que subjazem à existência da Praça Camões parecem-me tão insondáveis que nem um aparelhómetro da NASA os desencantaria. Eu, por exemplo, assim de repente, só posso imaginar que, no verão, durante o dia, esse local possa ser usado para secar figos (como fazia a minha Avó num terraço em casa dela). Enquanto que, à noite, aos românticos inveterados será facilitado o namoro ao luar, ali na placidez e no silêncio reinantes. A própria luz da praça Camões se tornará sua cúmplice, desprendendo-se, complacente, dos anémicos tubos que a fazem ainda mais branda, difusa e mortiça.
Mas a disfuncionalidade da Praça Camões estende-se, ainda, à penúria dos bancos que com o seu visual modernizado passam, afinal, desapercebidos a quem incompreensivelmente ali pare o tempo suficiente para desejar sentar-se.
Andava eu nestas reflexões, olhando à minha volta, quando dei por mim a tropeçar, duas vezes seguidas, na modernidade das caleiras que tão sofisticadamente enfeitam o pavimento da plataforma da Praça. Certa fiquei de que emoções mais fortes do que molhar a ponta do pé não teria eu ali. Mas nunca fiando, porém, porque a altura da plataforma pode apanhar desprevenido qualquer munícipe menos afoito pela carga dos anos que se veja, subitamente, em vias de se esbaldeirar do “andor” abaixo. Risco que pode correr qualquer pessoa que se embasbaque na difícil decifração do significado do monumento ao comércio tradicional. Porque pouco há para onde olhar, já que – para lá do resultado feliz do edifício do novo Centro Cultural – o estado de desconservação das casas envolventes da Praça espelha o vazio de um espaço sobre o qual se reflectiram tantas expectativas por concretizar. E que frustrou actividades municipais de carácter sazonal, como a Feira de Artesanato e a Feira do Livro, incapazes de competir com as vicissitudes da meteorologia e com as limitações impostas pelo local.
Seria, por isso, desejável que a Câmara Municipal de Bragança criasse na Praça Camões um projecto de interesse turístico com um enquadramento arquitectónico adequado. Que passasse, eventualmente, por concessionar parte do espaço a um restaurante ou bar com esplanada, como acontece nas zonas centrais de tantas cidades com a dimensão de Bragança. Sendo fundamental a resolução do problema da falta de sombra, de dia, e da falta de luz, à noite.
Tal como está, a Praça Camões não faz sentido e a sua existência torna-se ainda mais absurda se for comparada, enquanto espaço adjacente, com o edifício que alberga o Centro Cultural, a Biblioteca e o Conservatório. Que são, esses sim, uma demonstração bem conseguida de funcionalidade moderna e atraente, ou – como sói dizer-se em politiquês brigantino – atractiva.
Entretanto, pelo desandar da carruagem, a Praça Camões ainda há-de passar de sala ignorada a saguão evitar.



