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No reino da indisciplina

Ter, 08/04/2008 - 10:38


Quando andava a estudar e frequentava o segundo ano do Liceu, levei algumas varadas que me deixavam marcas no corpo feitas pela cana-da-índia com que o suposto professor me brindava nas aulas de Matemática.

Que culpa tinha eu de não saber nada de Matemática? E que culpa tinha eu de ter como professor um matarruano qualquer armado em professor, sem curso superior e sem preparação pedagógica? Como haveria eu de saber Matemática?
Mas, apesar das varadas que não me sabiam nada bem e das dores que elas me causavam, as únicas reclamações que pronunciava eram os ais magoados e as lágrimas incontidas que as dores faziam deslizar pelas faces e que se perdiam no chão poeirento da sala. Palavras, nenhuma. Respeitinho e educação eram lemas importantes e regras que não podíamos deixar de cumprir. Fora das aulas podíamos comentar tudo e falar de tudo. Claro que nos sentíamos magoados e tínhamos medo de ir a algumas aulas porque alguns professores eram mesmo maus e não tinham um mínimo de pedagogia para tratar com os alunos. Grande parte dos professores também não tinha curso superior acabado, principalmente os que ensinavam nos colégios particulares. Nos Liceus Nacionais as coisas eram um pouco diferentes no que respeita a cursos superiores. O que não diferia era a educação e o respeito exigidos aos alunos perante os professores e mesmo perante os colegas e restante pessoal auxiliar. Para falar com o professor na aula, levantava-se o braço e pedia-se permissão para pôr uma questão ou uma dúvida. Quem é que se atrevia a interromper um professor com assuntos inapropriados? Quem é que falava nas aulas ou se atrevia a falar mais alto do que o professor? Estava-se mal? Não sei!
Na realidade, muita coisa mudou e é verdade que algumas coisas tinham que mudar. Tristemente, hoje concluímos que algumas coisas que mudaram nunca deveriam ter mudado. Que razões explicam a falta de respeito dos alunos? Que razões explicam ou justificam a falta de educação dos alunos? Eu já não vou falar dos currículos e dos métodos de ensino aprendizagem. Isso é outra guerra! Fiquemos somente pelas bases essenciais que formam uma sociedade credível e capaz de evoluir a par de todas as outras com as quais nos fartamos de fazer comparações. Afinal queremos uma sociedade bem formada, respeitadora dos direitos e deveres, detentora de uma moral social aceitável ou queremos uma sociedade onde vale tudo, onde os direitos e deveres são ultrapassados e não contam para nada, onde o que vale é o salve-se quem puder? Afinal o que é que queremos?
A Escola Carolina Michaelis, que já foi um Liceu de referência, não deve servir somente o bairro do Aleixo. Serve certamente os alunos que vivem perto da Boavista e cujos pais não precisam de andar a roubar jantes caríssimas para as exibir nos seus carros quando vão à escola levar os seus filhos. O pai da aluna que agrediu a professora de Francês, possivelmente pertence ao grupo dos que exibem esses automóveis artilhados. E se assim for, o que nos ocorre de imediato perguntar é onde pára a educação de um e de outro? Onde está o respeito pelos mais velhos e pelos professores? Pois é. O pai da aluna em causa não frequentou com toda a certeza, os colégios de outros tempos, nem tão pouco o Liceu onde a sua filha entrou. Se isso tivesse acontecido, ele teria dado outra educação à sua filha e esta nunca se atreveria a faltar ao respeito à sua professora. É esta escola que nós queremos para formar a nossa sociedade? Para formar os nossos alunos?
Felizmente, nunca tive nenhum caso semelhante a este e já sou professor há 25 anos. Sempre tive um relacionamento aberto com os meus alunos e sempre os considerei como parte da família. A verdade é que lido com eles dois ou três anos seguidos e às vezes mais. Mas sei transmitir-lhes as regras às quais têm de obedecer. Faltar ao seu cumprimento é cortar os laços familiares que por ventura nos possam unir. Eles sabem o que isso significa. Eles compreendem. Ainda bem. Não sei o que faria se uma aluna minha tivesse o comportamento daquela do Carolina Michaelis. Francamente, não sei. Dou os parabéns à professora de Francês que conseguiu manter-se serena, apesar das agressões consecutivas da aluna. Mas, sinceramente, não é este tipo de alunos que nós queremos nas nossas escolas!
Os alunos até podem não aprender as matérias a que estão obrigados, mas pelo menos que aprendam a comportar-se em sociedade. A respeitar os outros e a ter educação porque não é preciso ter curso superior para se ser educado e respeitador.
Se a autoridade que os professores tinham no meu tempo de escola, era mal gerida e mal aplicada, o certo é que era um dos meios para atingir os objectivos da altura. Mas se para os voltar a atingir for preciso dar novamente essa autoridade aos professores, pois que se dê e que se exija o cumprimento de regras de parte a parte. A autoridade também é preciso saber geri-la.