Ter, 13/03/2007 - 16:14
Quando visitei o Museu do Abade de Baçal, no passado mês de Dezembro, lembrei-me de que não há uma segunda oportunidade para criar uma primeira impressão (como afirmou um político nacional), mas que as impressões podem ser acumuláveis. Recriando-se cada uma delas como uma primeira que nunca deixasse de o ser.
Intervencionado desde 1993 – ao longo de três fases –, o Museu do Abade de Baçal tem vindo a ser ampliado, num processo de valorização das suas peças, através das respectivas condições de conservação e segurança, em percursos progressivamente reformulados. A partir da primeira fase das obras, espaços como a sala Multimédia e a sala da Região permitem olhares surpreendidos sobre o Nordeste Transmontano e a sua riqueza patrimonial e artística. Também sobre a região, mas de outros tempos, se debruçam as salas de Arqueologia Pré-Clássica e Clássica, dedicadas ao Neolítico e à Romanização.
Já no segundo piso, a arte sacra nordestina expõe, bem-aventuradamente, o mecenato com que a Igreja da região marcou escultores e pintores. Em peças como a Virgem e o Menino (século XV) e o tríptico Martírio de santo Inácio (século XVI), ao lado de um imprevisto Orfeu, da Escola Holandesa do século XVII. Entre a sala 9, que é dedicada à memória do antigo Paço Episcopal – em cujo edifício está sedeado o Museu – e a sala 4, que corresponde à antiga capela do Paço e onde se assinalam alguns marcos da arte litúrgica renascentista e barroca da região.
Chega-se, então, à sala da Faiança, da colecção Cagigal (com peças maioritariamente do século XIX) e acede-se à sala de Pintura. Onde – para além do espólio de Abel Salazar sobre a imagética feminina – figuram autores como José Malhoa, Silva Porto, Aurélia de Sousa e Sara Afonso. E onde – surpresa, surpresa – encontramos uma fabulosa colecção de desenhos a preto e branco (As Fábulas, entre outros) de Almada Negreiros.
Seguindo o conselho da Direcção, não deve o visitante deixar o Museu sem, primeiro, olhar o jardim a partir da varanda, remodelada e transparente de imagens sobre a natureza do exterior. E eu acrescento que não deve o visitante deixar de olhar, a partir do varandim, na zona ampliada, o novo espaço que confirma a circularidade do Museu do Abade de Baçal. A sala aberta sobre a entrada – onde o início e o fim do percurso se tocam – assume-se como um ambiente de múltiplas valências, em outras tantas possibilidades de olhar, ver, conhecer, rever e reconhecer. As Festas dos Rapazes, por exemplo, que constituem a primeira exposição temporária – desde a reabertura do Museu – e uma homenagem às festas mascaradas dos concelhos de Bragança e Vinhais. Em máscaras de Varge, Grijó de Parada, Ousilhão e Vila Boa; em carros de bois, cajotas, bombos, caixas e gaitas de foles; em fatos de caretos, e o Diabo e a Morte com a sua gadanha; em imagens e mais que mil palavras.
No varandim, outra exposição temporária (patente até ao final deste mês) mostra os olhares do transmontano João Vieira sobre a mesma temática: o gosto da festa na celebração da cultura popular. Cruzando a tradição com a contemporaneidade, na matéria de que é feita a pintura (nas séries “Máscara Diabo” e “Caretos”), nas Máscaras que criou para a peça “O Físico Prodigioso”, de Jorge de Sena; e no burro em relevo, surpreendente na textura da sua simplicidade. Em frente, no mesmo espaço, em sessão contínua passam três filmes: a Festa dos Caretos, na Torre de D. Chama; a performance “Caretos”; e o vídeo “Más Caras”, protagonizado pelo actor André Gago. Todos eles recriando olhares sobre as várias vidas das máscaras.
Como organismo patrimonial que é, o Museu do Abade de Baçal inicia agora – após a conclusão das obras de ampliação e remodelação – um novo percurso onde se assume como local de procura e de pesquisa. Abrindo-se cada vez mais, enquanto “centro de trabalho e investigação activa com e sobre a comunidade que serve”, como afirma o seu director, João Neto Jacob. A equipa técnico-pedagógica tem desempenhado um importante papel de conexão com o meio, através da deslocação às escolas e da divulgação das actividades com que o Museu quer interagir com o público em geral e as instituições escolares em particular. Veja-se, no Dia de S. Valentim, a forma como a Lupercália (antiga festividade romana que homenageava a juventude e o amor) foi celebrada. Veja-se como a arte e a poesia – num jogo de pistas sobre figuras femininas expostas – lembrou o Dia Internacional da Mulher. Veja-se as “Conversas à hora do almoço” sobre o tema “Encontros imediatos com as festas dos rapazes”, que decorrem semanalmente.
E veja-se como o Museu do Abade de Baçal enquanto detentor de objectos raros se pode tornar um espaço de descoberta e de reflexão sobre eles. Através dos olhares de todos nós.


