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No fio da navalha

Ter, 26/02/2008 - 11:18


A madeira vai ganhando novas formas e vida a partir da lâmina da faca. A pouco e pouco, pedaços inertes dão lugar a bois, cavalos, charruas ou qualquer outra peça que passe pela cabeça do criador. Todos os dias, das mãos de Luís Moreira, ou Luís “Sena” como é conhecido em Bragança, nascem novas peças que retratam a infância e memórias do artesão. “Pego nas minhas lembranças de coisas antigas e rurais, como alfaias e charruas, e tento fazer réplicas a partir dos materiais”, explicou o artesão.

Foi há cerca de 15 anos que começou, um pouco por acaso, a criar as primeiras peças. “Fiz um garfo e depois uma colher muito originais, mas nunca tive nenhum professor, nem aprendi em nenhuma escola. Foi um pouco sem querer”, recorda Luís “Sena”. A partir daí, e com o incentivo de um amigo que era artesão, começou a ter o gosto pela arte. “Decidi ir fazendo outras coisas, como carros de bois, casas de telhas ou a meter escadas dentro de garrafas”, acrescenta.
Assim, a partir de madeira de negrilho, oliveira, choupo ou utilizada na construção civil, telhas de casas velhas, pauzinhos de gelados, cornos de animais ou rabos e patas de javalis, vai dando vida, conforme a inspiração. “O corpo pode estar a descansar, que a cabeça vai trabalhando sempre e idealizando as peças”, salienta.
Depois de conseguir os materiais, o artesão utiliza os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos para tratar e trabalhar da melhor forma as madeiras e telhas. “Sei que alguns materiais têm que ficar de molho para poderem ser moldados. Já conheço todos os truques e é por isso que as peças requerem muito trabalho e empenho”, referiu Luís “Sena”.

Luís Moreira já tem clientes nos Estados Unidos da América ou França

Apesar de não criar as peças com intenção de as vender, Luís “Sena” já tem algumas encomendas para enviar para os Estados Unidos da América e França. “Tenho muito gosto naquilo que faço, mas não tenho o objectivo de vender, porque nem sempre se paga o valor justo e sou artesão por carolice, não como modo de ganhar a minha vida”, sublinhou Luís “Sena”.
No entanto, o seu trabalho vai sendo conhecido de boca em boca e as encomendas vão surgindo. “Não vendo muita coisa e a maior parte das peças são mesmo para oferecer a amigos e família. Contudo, tenho muita gente interessada em negociar, mas, para quem faz tudo à mão, o preço nunca é justo. Já para quem compra, estas peças são caras”, lamenta o artista.
Não há, assim, dinheiro que pague as horas diárias passadas naquela pequena garagem, no bairro de São Sebastião, em Bragança, atulhada de peças encaixotadas por falta de espaço. É ali que, ao som da música e da lâmina da navalha, a perfeição dá vida a materiais abandonados e desvalorizados.