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Na Grelha

Ter, 11/03/2008 - 12:06


Grelha de objectivos individuais. Grelha de planificação. Grelha de cumprimento das planificações. Grelha de observação de aula. Grelha de registo da informação. Grelha de registo de avaliação. Grelha de registo de suporte documental. Grelha de registo de análise documental. Grelha de análise de conteúdos do Portefólio. Grelha de auto-avaliação. Grelhas, grelhas, grelhas, grelhas, grelhas, grelhas, grelhas.

Uma das especificidades da grelha enquanto documento de registo de desempenho é o seu lado paradoxal. Ou seja, pretende-se aferir (verbo muito “pedagogical”), quantificando, os níveis avaliativos de um processo diário, contínuo, permanente e global, recorrendo a itens, letras e números. Como se avaliar e classificar fossem actividades facilmente discerníveis em função de suportes magnificamente produzidos em Excel onde o que conta é colocar a cruz no sítio certo. Negando, afinal, o verdadeiro conceito de avaliação enquanto processo sistemático e complexo – não na forma, mas, sim, no conteúdo.
O novo processo de Avaliação do Desempenho dos Docentes (Decreto Regulamentar nº2/2008 de 10 de Janeiro) não tornará ninguém melhor professor. Pelo contrário. Causará cansaço, desgaste e insatisfação nos bons profissionais; e permitirá aos outros contornarem arestas, pelo acesso ao trabalho de colegas mais atentos ou pelo recurso a materiais “inovadores” que, ao abrigo da visão redutora da “tecnologia” governamental, fariam de qualquer produtor de PowerPoints um profissional “moderno e esclarecido”.
Como se ensinar (verbo desvalorizado pelas novas orientações educativas) não implicasse um número infindável de tarefas e de empenho diário e sistemático. E como se aprender não fosse um verbo aplicável a todos os seres humanos, mesmo àqueles que crêem ter sido escolhidos para, de melena ao vento, empunhar a bandeira desfraldada da verdade nua.
Para quê consumir tempo e energia aos professores, retirando-lhes autonomia e liberdade pedagógica, através da “normalização” de processos burocratizantes e vazios, a realizar de dois em dois anos, para prejuízo dos próprios alunos? Com critérios de muito duvidosa justiça como aqueles que implicam que os professores sejam avaliados pela progressão dos alunos (é assim que o governo quer pôr fim ao insucesso escolar?) e pelas taxas de abandono escolar (como se os professores pudessem ser responsabilizados por fenómenos de carácter socio-económico, para além de tudo o resto).
Nenhum professor consciente e responsável é contra a avaliação da sua classe profissional. Mas que não seja esquecido que foi um governo socialista – do qual José Sócrates era ministro do ambiente – que instituiu um processo quase administrativo de progressão da carreira que até então implicava provas públicas para aceder ao oitavo escalão e, consequentemente, dificultava o acesso ao topo da carreira (que seria atingido no décimo). Avalie-se para melhorar a qualidade do ensino e não para complicar esterilmente o trabalho por natureza difícil e desgastante dos professores.
Há mais de trinta anos que os professores têm sido profissionais de quase total polivalência. Começaram – na tristemente célebre “escola dos afectos” – por desempenhar papéis de actores imbuídos de recém-estreadas metodologias pedagógicas e didácticas. Passaram, quase em simultâneo, a sociólogos, psicólogos, funcionários administrativos, assistentes sociais e animadores culturais. Agora, como se mais papéis não houvesse, são lançados aos outros papéis, num processo kafkiano de burocracia esgotante e sem outra função que não seja a de criar um efeito atordoante, junto da opinião pública, de que “agora é que é”. Como se os professores não tivessem sempre sido grandes profissionais sujeitos a muito trabalho e a condições de enorme sacrifício pessoal.
Muito mais importante, justo e necessário do que marcar um professor com um I, um R ou um B, é, da parte do governo, apetrechar as escolas com boas condições logísticas e pedagógicas, permitindo a cada profissional desempenhar com conforto e bem-estar as suas tarefas e aceder a processos de formação contínua e eficaz. É assim que a escola evolui. E é assim que os alunos serão beneficiados.

Nota final: Fenómeno dos fenómenos, os cerca de cem mil professores que se manifestaram em Lisboa no sábado passado, estão todos, mas todos, enganados, errados e, portanto, chumbados. A Sr.ª Ministra da Educação está certa, é claro. Mas como vai ela lidar com este grave caso de insucesso escolar?