Ter, 06/03/2007 - 11:06
É fascinante a história da oliveira através de todos os ângulos, desde o simbólico expresso nas hierofonias tão bem aprofundadas por Mircea Eliade, até às criatividades gastronómicas na crista da onda das boas práticas culinárias, não confundir com o conceito de “Haute Cuisine” que já o vi (mal) estampado a propósito de enchidos, passando pela medicina, a farmacopeia, dietética, nutrição e perenidade da beleza. Há poucas semanas por indicação de António Monteiro, a Câmara de Mirandela convidou-me a participar num “Simpósio” dedicado ao azeite. Apesar da usura do tempo aceitei o convite e, para além das conversas amenas e esfusiantes em redor da mesa, da pertinácia das intervenções e argúcia operativa da italiana Angela Barusi e dos ensinamentos recebidos, fiquei agradado e interessado no conceito estratégico em torno da oliveira defendido pela Autarquia. Só por isso valeu a pena deslocar-me à cada vez mais densa cidade da Nossa Senhora do Amparo, porquanto percebi a intenção de partindo da emblemática árvore criarem-se múltiplas valências nas diversas áreas do conhecimento, consequentemente da cultura na máxima amplitude. Encontrar interlocutores interessados nas minhas apaixonadas e muitas vezes teimosas opiniões no domínio das indústrias da cultura não é fácil nestes tempos de envernizamento efémero, mas para além disso, perceber vontade em as discutir de modo a levá-las à exequibilidade reforça-me o entusiasmo em continuar a acreditar no inteligente aproveitamento dos recursos naturais existentes no Nordeste. Todos quantos dedicam tempo ao estudo do “estado” da cultura no Mundo, sabem que coulter é sua cognata, significando lâmina do arado, ou agricultura não fosse o cultivo das terras e Francis Bacon escreveu sobre: “A cultura e o adubamento das mentes”, ora, a oliveira em terras mirandelenses recolhe larga e soberana preferência para ascender a imagem-marca-símbolo de Mirandela. Ou seja: o culto cultiva a ideia de uma árvore assumir foros de representação de mulheres e homens de todas as condições e convicções, transformando o oculto em claro, ideias muito caras ao filósofo Orlando Vitorino, pois o saudoso Mestre sempre defendeu a ilustração de todos nós, convidando-nos a observar o mundo que nos rodeia a principiar na terra pisada pelos nossos pés. E, ele amava as oliveiras, tendo-as em grande número no Monte sobranceiro a Estremoz. Como sabemos, há árvores cuja evocação logo desencadeia uma multitude de ideias, conceitos, opiniões e inspira obras de todo o género, sendo uma das mais célebres, o quadro “Guernica” de Picasso. Se se derem ao trabalho de pensar um pouco ou estudar durante algumas horas, depressa descobrem quão importantes são determinadas árvores para o “orgulho de nós mesmos”. Prefiro não fazer mais nenhuma alusão a árvores dessa natureza e grandeza, pois acredito na vontade de os leitores fazerem tal pesquisa, no entanto, fiquem a saber: em Mirandela, gente de diversas vidas e visões, matizes e opiniões está da oliveira fazer bandeira, estandarte, escudo, brasão e medalha. Vão no bom caminho, até porque a raiz latina da palavra cultura é colere – a qual significa tudo: desde o tal cultivar até prestar culto e proteger. Perdoem-me os latinistas, mas o facto de Mirandela em termos de totalidade significante ter escolhido a oliveira causa-me imensa alegria, mais a mais em tempo de farândola e vanidade, este “cultus” em seu torno é registo distintivo da usualmente conhecida por princesa do Tua, por isso apetece exclamar: a princesa de um ramo de oliveira fará a sua coroa e de outro o báculo do poder!


