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Livro-Trânsito

Ter, 22/04/2008 - 10:50


Os livros são como o bom senso. Quem pouco se serve deles não lhes sente a falta.

E esse pressuposto lança uma luz esclarecedora sobre o uso exponencial de um aparelhómetro chamado telemóvel. O que abala o tal argumento – supostamente resistente – de que “não se compra livros porque são muito caros”. Lá ser, serão (alguns, pelo menos), mas o cidadão a quem as contas para pagar ao fim do mês dão conta do juízo nem por isso parece muito afoito para reduzir o número de telemóveis do seu agregado familiar, nem para cortar ao requinte tecnológico do último modelo adquirido, cujo grau de sofisticação fica frequentemente aquém do uso que dele é feito.
É certo que, à primeira vista, um livro terá dificuldade em competir com as valências de um telemóvel, mas é sabido que as primeiras impressões não são necessariamente as mais consistentes. Pelo que há critérios que se contradizem e argumentos que se anulam.
Ocorre-me esta reflexão num momento conjuntural assente no Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor que se comemora em 23 de Abril.
Se as “efemérides” têm a vantagem de lembrar (e é triste pensar que é preciso fazê-lo) ou chamar a atenção para qualquer valor ou referência; elas podem, por outro lado, carregar o defeito colado a qualquer foguetório estridente. Após o qual – e aliviadas as consciências – se retoma o ramerrão do marasmo, ou indiferença, ou alheamento, ou desinteresse, ou condescendência que estão geralmente na origem das situações que levam à institucionalização do “Dia de”. Por isso, quero desde já esclarecer que não sou a pessoa indicada para fazer a apologia estonteadamente indefectível do Dia Mundial do Livro. Porque leio todos os dias. Porque gosto muito de ler. Porque trago sempre um livro comigo. Porque gosto de livros. Porque gosto de dar livros. Porque gosto que me ofereçam livros. Porque não gosto de que não me queiram oferecer livros por pensarem que “já tenho muitos” (porque isso é não compreender o que é gostar de ler). Porque gosto de comprar livros.
E daqui escorrego para a questão das livrarias de Bragança que, tanto quanto me apercebo, vão lutando, desde sempre, pela sobrevivência, recorrendo a serviços de papelaria. O que, entenda-se, não tem por que ser visto como desprestigiante porque, para além do factor da rentabilização dos estabelecimentos que a venda de material escolar, ou outro, sempre implica, há a questão da comodidade disponibilizada ao cliente que pode, no mesmo espaço, adquirir bens distintos.
Se o centro histórico de Bragança tem, de facto, uma livraria que permite o acesso a um vasto número de obras de diferentes tipologias – num investimento que cresce exponencialmente – também é verdade que a crise do comércio nessa zona da cidade agarra, naturalmente, o negócio dos livros. Sem informação sobre espaços de estacionamento, turistas e visitantes da cidade ver-se-ão numa óbvia situação de desandar sem parar. E não é certamente a Feira do Livro municipal que resolverá por si alguma coisa.
Quanto à eterna crise económica, ninguém que goste de ler e tenha por hábito fazê-lo deixa de comprar livros por causa do défice orçamental. Por outro lado, não é uma situação de desafogo económico que vai transmitir a alguém, que nunca aprendeu a gostar de ler, o encantamento dos livros. O que há é um sistema feito de prioridades e cada qual tem as suas.
Se os hipermercados são considerados os maiores concorrentes das livrarias, porque as pessoas aproveitam para comprar livros ao mesmo tempo que fazem outras compras, parece-me que não há razões pelas quais as livrarias não possam competir com as grandes superfícies, como quaisquer outras lojas cujos produtos se vendam também nos hipermercados. É que apesar das vantagens óbvias das grandes superfícies – os livros são de fácil acesso porque estão escarrapachados nas prateleiras –, as livrarias têm a enorme possibilidade de fidelizar público. Pelo atendimento particularizado e atento, capaz de sugerir e aconselhar; pela redução no preço dos livros aos clientes habituais e aos que possam vir a sê-lo; pela disponibilidade de fazer encomendas; pelo serviço rápido e eficiente; e pela capacidade de compreender os desejos de um público variado cujo grau de exigência irá aumentando, ao ponto de não se satisfazer com as obras generalistas e “best sellers” que pululam nas grandes superfícies.
É que as livrarias podem ser muito mais do que alternativas aos hipermercados. E devem ser a primeira escolha.