Ter, 27/11/2007 - 10:54
Se a identidade cultural de um povo passa (e muito) pela sua língua e pela forma como ela é preservada e valorizada, está visto que estamos em crise. De identidade, entenda-se.
Piscamos os olhos aos franceses, porque é muito raffiné. Mas o que quer que façamos, o importante é a démarche em causa. E quem não sonha ser um expert no seu metier? Claro que sem a devida entourage, vai tudo para as urtigas (Credo! Como é que se diz isto em francês?). O que é preciso é um décor incrementado com o plafond correspondente, pois claro. Mas aviso aos incautos: não confundir com placard. Seria uma gaffe!
Repare-se que os portugueses são – de entre todo o conteúdo do velho continente – os que têm mais penchant para falar qualquer língua que não seja a sua. Quem não sonha ser o guia-intérprete de um grupo de turistas que se passeie pelas bandas nacionais? Nem esperamos que nos interpelem. Avançamos de sorriso em riste. E nem os deixamos mastigar os seus dissílabos de Português de roteiro. Nada disso! Que não se cansem! Nós rodeamo-los. Inundamo-los com o nosso perfeito domínio do Inglês (ah, se o Sr. Primeiro Ministro nos pudesse ver, não demoraria a consagrar-nos com o prémio do português mais cosmopolita). Os turistas sorriem delicadamente e com algum espanto. Acham-nos o máximo, está visto! E venham depois uns espanhóis! Melhor figura faremos, que o nosso castelhano não fica a dever nada ao deles, hombre! O que explica o facto de os espanhóis acreditarem que em Portugal não se fala; habla-se. Por isso, quando eles cá vêm, falamos a sua língua; e quando vamos nós lá, continuamos a falá-la.
Percebe-se que os portugueses merecem plenamente o epíteto de “amigos sem fronteiras”. E podemos, até, ser equiparados ao exército suíço: sempre pronto a entrar em acção, sem nunca abdicar da neutralidade de quem quer agradar a todos...os de fora.
E, portanto, para que ninguém duvide da nossa mais do que perfeita eurofonia, deixemo-nos de lobbies linguísticos. Sabemos que o timing é perfeito para mostrarmos a nossa capacidade de planning, porque temos um óptimo trunfo – o melhor staff. Assim sendo, quem precisa de sponsor? Não, não respondam já, que para isso existe o messenger, o blog, o mail e o voice mail. Por favor, estejam sempre on-line! Candidatem-se a um franchising, em caso de dúvida, não descurando o vosso share e consigam o melhor cluster. Estando well off (que é, como quem dizia, bem na vida), nenhum trade off vos assustará e poderão, então lançar-se num processo de phase in e phase out. Não sem antes entenderem as particularidades de um qualquer out sourcing que vos fará perceber a importância do verdadeiro spill over. Entretanto, ponham os vossos neurónios a fazer algum working out com um bom Trivial Pursuit ou, se quiserem uma actividade mais soft, tentem o Pictionnary. Antes de relaxarem diante de um bom e-book, se tiverem feito um copy paste.
E, “last but not least”, há que agradecer o enorme esforço contributivo de alguns canais televisivos para o incremento da língua inglesa entre nós. Entre o cross fire de shows, big shows e surprise shows, sentimo-nos mais cosmopolitas e, decididamente, muito sofisticados.
Mas nem só de estrangeirismos vive o requinte linguístico. Juro.
Há portugueses que conseguem, na sua própria língua, atingir elevadíssimos graus de erudição, distinção e criar alguma estupefacção. Tal foi, há algum tempo, o singular (façamos figas) caso de um alto funcionário da administração pública que, em visita à nossa região, se referiu a um projecto requerido por uma autarquia como “uma tarefa ciclópica”. Acrescentando que se tratava de “uma questão capilar”.
Realmente. Não se pode desejar mais. Sobretudo, não se deve.
Então, tarefa ciclópica, hein? Eu, assim de repente, só vejo uma relação com as personagens da mitologia clássica designadas por ciclopes. Eram de elevadíssima estatura (gigantescos, não é?) e tinham apenas um olho, no meio da testa. Por isso, não prevejo um futuro muito risonho para a tal “tarefa”. Quanto à “questão capilar”, deve ser, provavelmente, um problema de lana-caprina.
Palavras para quê? Somos todos artistas portugueses.


