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Letra e Música

Ter, 08/05/2007 - 10:47


No dia 24 de Abril, estive, com pouco mais de cinquenta pessoas, no Teatro Municipal de Bragança. Assistindo a um concerto absolutamente magnífico, pela presença e a voz sublime de Anabela Duarte (ex-vocalista dos oitentistas Mler If Dada) que, acompanhada ao piano por Ian Mikirtoumov, cantou músicas do clássico experimentalista Kurt Weil e poemas do desarmante Boris Vian. O espectáculo foi quase único na sua qualidade. Irrepetível não, porque, segundo informação da directora do Teatro, teve também lugar no dia 28 de Abril, no Porto, na Casa da Música, com casa esgotada e – curiosamente ou talvez não – com os bilhetes seis vezes mais caros do que aqui em Bragança. Imagino que Anabela Duarte, ao olhar para esta raquítica plateia, terá entendido que o conceito de desertificação é não só um fenómeno redutor de indivíduos num horizonte, mas também um fenómeno redutor dos horizontes de indivíduos. Digo eu.

Olhando para o programa do espectáculo e para os títulos das canções, antes do concerto começar, uma pessoa minha amiga teve esta exclamação iluminada: “Se o Presidente da Câmara aqui estivesse, eu pediria à Anabela Duarte que lhe dedicasse o poema de Boris Vian, Le Déserteur” (O Desertor). Pois. Boa! Mas o Presidente da Câmara estava ausente. Imaginei-o preparando a Sessão Solene do Dia 25 – o que é pena, porque terá ficado nos munícipes a ideia de que o trabalho de casa é deixado para a última, além de que ouvir Anabela Duarte cantar é um privilégio que nem sequer um autarca deveria deixar escapar. E, por isso, o Presidente da Câmara perdeu um momento inesquecível que o teria levado a olhar para a canção mais séria do politicamente incorrecto escritor e saxofonista francês Boris Vian, musicada por Harold Berg.
“Sr. Presidente, escrevo-lhe esta carta que o senhor talvez leia, se tiver tempo” afirma, com ironia amarga, o homem que acaba de ser mobilizado para partir para a guerra “ainda antes de quarta-feira à noite”. Mas essa guerra, ele não a quer fazer, porque diz que não está no mundo para matar uns quantos desgraçados iguais a si. E continua: “a minha decisão está tomada. Sr. Presidente, não é para se zangar, mas tenho de lhe dizer que vou desertar”. E explica: “desde que nasci, vi morrer o meu pai, vi partir os meus irmãos, vi chorar os meus filhos. A minha mãe sofreu tanto que lá, na sua sepultura, está-se a borrifar para as bombas e para os vermes”.
E nesta frase, jogando com o real e o simbólico, Vian resume o absurdo com que a guerra formata os homens e do qual só a morte os liberta. Denunciando a hipocrisia dos poderosos que, como bons apóstolos do seu próprio evangelho, vão pregando, conscienciosamente, a força do sangue alheio por derramar: “se é preciso dar a vida, Sr. Presidente, então dê o senhor a sua”.
E Vian continua, num tom de desespero organizado, como uma viagem planeada sem fim: “Vou mendigar a minha vida nas estradas de França, da Bretanha à Provença. E vou gritar às pessoas para que se recusem a obedecer, para que se recusem a partir para a guerra, para que se recusem a ir embora”.
E com a coragem desassombrada dos que não têm já nada a perder, Vian termina, informando o Sr. Presidente de que se mandar os seus guardas persegui-lo, deve preveni-los de que ele não estará armado e que poderão disparar. O que constitui, nesse ano de 1954 – em que a França se dispõe, furiosamente, a esmagar a vontade independentista da Argélia – uma manifestação de luta pelo pacifismo e de recusa do pronto-a-pensar pseudo-nacionalista com que a ideologia institucional abafa a livre singularidade de cada ser humano.
Em 1966, José Mário Branco traduziu “Le Déserteur” e adaptou-a à realidade da Guerra Colonial, cantando-a pela Europa fora, até 1974: “Ao senhor presidente / e chefe da nação / escrevo a presente / para sua informação / recebi um postal / um papel militar / com ordem pra marchar / prá guerra colonial / (…) à guerra dizei ´não`! / a gente negra sofre / e como nós é pobre / somos todos irmãos”. Mas, contrariamente à versão final de Boris Vian, não faz o adeus às armas; antes manifesta o desejo de marcar uma revolta que não é feita só pelas palavras: “ se me mandar buscar / previna a sua guarda / que eu tenho uma espingarda / e que eu sei atirar”.
Hoje, em 2007, aqui em Bragança, a descer a “moderna” e feia e asséptica Avenida das Forças Armadas, penso noutra adaptação das palavras de Boris Vian.