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Escravos

Ter, 20/03/2007 - 11:50


Há já vinte anos, quase vinte e um que Portugal faz parte da União Europeia. Muita coisa mudou durante estas duas décadas para bem e para mal. Fazer parte da Europa é fundamental para um país como o nosso, periférico e pobre. A distância que nos separa dos países mais ricos deste velho continente é enorme, embora as condições de vida tenham melhorado muito desde então. No entanto, nem todas as expectativas se cumpriram e esta Comunidade Europeia não é a solução para todos os nossos males.

Os portugueses, desde a época dos descobrimentos, tentaram procurar melhores condições de vida. Em tempos mais recentes foram obrigados a sair para vários países da Europa para o conseguirem. Trabalharam muito e fizeram coisas que aqui, no seu país, não seriam capazes de fazer. Viviam em condições pouco aceitáveis para os padrões modernos e contentavam-se com o que lhes davam pelo menos até conseguirem dominar minimamente a língua.
Alguns conseguiram amealhar fortuna e uma boa posição social. Muitos regressaram, construíram boas casas nas suas terras e fizeram um pé-de-meia confortável para o resto das suas vidas que não foram isentas de sacrifícios e privações apenas com a intenção de construírem uma vida melhor para si e para os seus.
Ainda hoje somos um país de imigrantes. No entanto, o estigma de inferioridade que durante anos alimentámos ou deixámos que se fosse enraizando nas mentalidades dos habitantes dos países para onde imigrámos, e que infelizmente nos acompanha ainda, faz que não nos considerem europeus de primeira. Somos um povo dócil, humilde e trabalhador lá fora, o que por vezes faz com que não nos respeitem como merecemos.
No entanto somos tão capazes como qualquer pessoa deste mundo e já demos provas mais do que suficientes em todas as áreas de actividade. Temos excelentes cientistas, empresários, médicos, engenheiros, advogados, arquitectos… somos trabalhadores empenhados e responsáveis.
Esta falta de respeito pelos portugueses e a má situação financeira que o país atravessa, contribuem para acentuar essa ideia e conduz a situações de extrema gravidade a nível social. Vejam-se os vários casos de quase escravatura ocorridos na Holanda, na Inglaterra, na Espanha que todos os dias nos entram pela casa dentro através dos telejornais.
Os mais humildes de nós são tratados, em países que como o nosso são membros efectivos da União Europeia como escravos, por pessoas sem escrúpulos. Nota-se um quase descaso pela sorte destas pessoas que apenas querem ganhar dinheiro honestamente e à custa do seu trabalho.
Esta Europa não é socialmente correcta. Ainda deixa que se submetam à escravidão mais indigna, homens e mulheres que não tiveram a sorte de encontrar no seu país de origem, as condições necessárias para poderem ter uma vida digna.
Até quando se verificará esta situação? Para quando uma Europa mais igualitária no tratamento de todos os seus cidadãos? Para quando um maior rigor na aplicação de regras justas para todos? Continuaremos a ser um continente de cariz feudal, nós, que sempre nos orgulhámos de sermos os pioneiros de todas as coisas?
São muitas perguntas para as quais não tenho respostas. Custa-me que com uma regularidade assombra, se apresentem nos meios de comunicação social, situações da mais pura miséria e humilhação de portugueses por esta Europa que se diz berço de tantas civilizações.
Em pleno século XXI sinto-me, por vezes, transportado para tempos muito longínquos em que a vida humana pouca importância tinha.
No entanto, continuo a acreditar que o ser humano é essencialmente bom e que ainda seremos cidadãos europeus em plena igualdade de direitos. Que assim seja.

Marcolino Cepeda