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Dedicatórias

Ter, 26/02/2008 - 11:42


Na semana passada estive no Porto e com um amigo jantei na Alfândega, porque naquela enorme nave principiava uma festa de comeres nordestinos, melhor dito – uma exercitação culinária – entregue aos restaurantes Académico, Duque, Geadas e Dom Roberto. Logo à entrada, em lugar saliente, estava uma banca com este jornal e um espaço de venda de livros relacionados com Trás-os-Montes. Adquiri três livros e enquanto esperava por umas trutas de escabeche fui folheando o “Ciclo do Pão”, trabalho rigoroso do sempre lembrado Cónego Belarmino Afonso.

Na portada o autor lavrou alegre e respeitosa dedicatória em honra de uma senhora dona doutora que por todas as razões e mais algumas não vou revelar o nome. No entanto, a dádiva acompanhada por palavras afectuosas do Autor acabou por acabar numa “Loja de Antiguidades” de forma a podermos verificar como a ingratidão é um dos sentimentos mais apreciados pelo Homem, neste caso uma mulher. As dedicatórias fazem parte de uma milenário normativo, sendo estudadas por investigadores de muitas disciplinas pois elas são preciosas fontes de informação relativas aos costumes, etiqueta, relações de poder e estatuto dos que são delas objecto e dos que afectivamente as oferecem. Na altura, entre elogios e hossanas às trutas levadas para o burgo portuense pelo Sr. Adérito, observei ser este fenómeno da ingratidão em matéria de dedicatórias muito corrente no circuito das letras, e recordei o facto de numa incursão a um renomado alfarrabista lisboeta ter adquirido um livro dedicado por David Mourão-Ferreira a um, na altura, fosforescente crítico literário e ter folheado outro no qual Eduardo Prado Coelho recebia palavras de muita estima e consideração da parte de António Coimbra Martins. Comprei o livro de David e levei-lho. Na dedicatória rejeitada o notável ensaísta e poeta dos maiores tinha escrito: “ Ao poeta e crítico fulano de tal, grata lembrança e afectuosa homenagem do seu amigo, camarada e admirador. Fevereiro de 1974. Depois escreveu: Em tempo: Dado o desinteresse do poeta e crítico acima mencionado, é com maior gosto que transfiro a posse deste exemplar para…2 de Fevereiro de 1988.
Sem me querer perder em jogos de minúcia convido o leitor a fazer um esforço de memória a fim de recordar os postais enviados a atestarem ter estado ali ou acolá – de preferência em zonas de veraneio ou países de fazer inveja –, as estampas e santinhos oferecidos nos dias solenes e as fotografias dedicadas à namorada. Eu quero – eu desejo – eu espero não lhe criar problemas de consciência, muito menos parecer ridículo. No entanto, vale a pena fazer o registo desses actos, e talvez lhe apareçam imagens de tempos felizes a tropeçarem numa inesperada rejeição, ou ao invés o leitor a trair despreocupadamente as juras de amor eterno escritas nas costas das fotografias. Dirá o leitor: pois, está bem, mas tais fotografias e outras manifestações de impulsiva e imperiosa paixão não aparecem nos alfarrabistas e vendedores de velharias, porque não sou figura pública, actor ou artista, negociante promovido a milionário ou político transformado em Calisto Benevides. Não se fie nesse raciocínio, quando menos se espera a antiga namorada perversamente decidiu vingar-se da desfeita e as provas das falsas promessas e das esperanças não confirmadas são metidas em envelopes habilmente colocados no meio dos livros condenados a saírem de casa. Se não for a namorada despeitada, pode ser a antiga mulher após divórcio famoso devido a toda a casta de conflitos, remoques e agres palavras. Afianço: milhares e milhares de provas da vingança – a vingança serve-se fria – estão à sua disposição em tudo quanto é sítio dedicado à venda por debaixo de todas as mãos de documentos deste género. Não vivo atormentado, nem acabrunhado pela perspectiva de fotos minhas estarem no circuito, apenas uma namorada se deu ao trabalho de me devolver retratos ornamentados por refulgentes dedicatórias, por seu turno guardo fotos das moças com quem planeei – amor e uma cabana, vidas felizes para todo o sempre e fortuna a condizer – por nenhuma razão especial, mas porque devolvê-las era praticar uma desnecessária maldade e rasgá-las uma aleivosia contra a vida. O leitor guarda fotografias? É só perguntar, por perguntar!

PS. O último texto de Paula Romão revela receios, para não dizer medos, pela possibilidade de Bragança vir a possuir mais museus. A proliferação de equipamentos culturais deve alegrar-nos. Ou não?