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Dê-erres na lapela

Ter, 08/05/2007 - 10:48


Já numa outra ocasião abordei de passagem um tema que me parece constituir um dos traços mais marcantes da nossa personalidade – uma auto-imagem bastante degradada, alimentada por fortes sentimentos de inferioridade. Basicamente não gostamos de nós, consideramo-nos uns coitaditos, uns pobres diabos. A frase lapidar de Eça de Queirós isto não é um País, é um local mal frequentado resume de forma magistral esta desconfortável ideia. Ora parece que em determinados aspectos a mente funciona como uma espécie de balança de dois pratos, cujo fiel procura permanentemente o ponto de equilíbrio. A história das milhentas maneiras que inventámos com vista a restabelecer esse sempre instável equilíbrio daria para outros tantos volumes.

Uma delas consiste simplesmente na procura constante e obcecada da aprovação, da estima, da consideração e reverência alheias, coisas no fim de contas perversas que tornam a nossa mínima acção dependente da opinião dos outros. A um nível mais institucional, outro processo de grandes tradições para obter o público reconhecimento passava pela obtenção de títulos nobiliárquicos, honoríficos, comendas, condecorações, honrarias de toda a sorte. Mais recente e burguesmente, os diplomas universitários, por exemplo, são coisas que parecem trazer grande satisfação aos egos daqueles que os obtêm.
O canudozinho dá-nos na alma, fascina-nos tanto como a vitrina dos chupa-chupas, das gomas e das pastilhas elásticas a uma criança de quatro anos. Um Dr., um Eng. ou um Arq.º antes do nome, independentemente do seu conteúdo, fazem-nos subir às nuvens. É assim que, novos-ricos ou velhos-pobres, avidamente procuramos licenciaturas, mestrados, doutoramentos seja lá onde for, seja lá do que for, mesmo que de Caca de Vaca, para usar a feliz expressão de um dos nossos deputados à Assembleia.
Acontece, por outro lado, que nos encontramos também agora em plena ditadura do mercado e das suas implacáveis leis. É sabido que dentro do espírito mercantilista puro e duro como aquele em que vivemos, havendo procura há oferta. E não existindo lar português que não almeje ter filhos formados (para muitos progenitores estes são um espelho que reflecte aquilo que eles nunca conseguiram ser), mesmo que em nada e para nada, estavam há já algum tempo reunidas as condições ideais para o advento e o sucesso de um rendoso negócio.
Houve inicialmente algumas pequenas dificuldades a ultrapassar: os canudos apenas se obtinham nas grandes cidades do litoral e era incómodo ir lá buscá-los, além de que se perdia muito tempo. Pior ainda, era preciso marrar, suar as estopinhas para um dia orgulhosamente os poder pendurar na parede do escritório. O produto ainda não estava suficientemente próximo do consumidor médio, de inteligência e de bolsa. Mas nada que os engenhosos homens dos cifrões não fossem capazes de resolver. Então, no princípio dos anos oitenta (governando Aníbal Cavaco Silva), assim como assistimos em todas as esquinas ao aparecimento de Continentes, Pingos Doces, Modelos, Lidls e Feiras Novas, assim o ávido consumidor viu, surgidos milagrosamente do nada, tal como os míscaros após as grandes chuvadas do Outono, estabelecimentos particulares de ensino ditos superiores, em todas as vilórias, aldeolas e lugarejos do País – uma clara cedência, claro está, aos grandes poderes económicos nacionais.
É certo que lá fora, nomeadamente em países de tradição anglo-saxónica, o ensino superior de iniciativa privada possui grande prestígio e tradição. Aí se fez sempre investigação científica de ponta, aí se formaram e formam muitos Prémios-Nobel, aí a ligação às empresas e ao desenvolvimento são coisas sérias. Isso pareceu, de início, tranquilizar não poucas mentes ingénuas. Mas por cá, com o espírito chico-espertista e merceeiro que nos é peculiar (o do onde há lucro não há escrúpulo), era certo e sabido que a coisa só poderia dar para o torto. A nossa avidez por cursos e certificados que prometiam empregos e progresso cegou-nos de tal maneira que não vimos, ou não quisemos ver, que era humanamente impossível criar, da noite para o dia, estruturas físicas bem apetrechadas e quadros de professores com qualidade científica e pedagógica adequada para tão nobres intenções.
E foi o regabofe que se tem visto: cursos que se compram por fortunas sendo autênticos engana-tolos, o cheiro fedorento a irregularidade e a fraude, o despudor e o nacional-porreirismo no seu melhor. É legítimo, sem arriscar demasiado, calcular que a ciganada sem vergonha em que a Independente anda metida será apenas uma ponta de icebergue. Curioso é constatar que quando alguns casos de maior notoriedade transpiram para a opinião pública, como foi agora o caso, já esta está farta de saber e contar anedotas a propósito. Cómico até ao delírio é também saber que os nossos zelosos governantes, tendo conhecimento de tudo isto através de comissões de inquérito a cujas conclusões preocupantes não ligam a ponta de um corno (porque será?), continuem a encher a boca com a necessidade de desenvolvimento, de modernização, de investigação, de investimento tecnológico, de qualidade, de competitividade nos difíceis meandros de uma economia globalizada. Cito de memória, ainda, (e para terminar, que o espaço escasseia) um desabafo de uma personagem de Eça, mais actual do que nunca: – Que abjecção de país!...

Manuel E. G. Pires