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Ceroulas, combinações e outras coisas mais

Ter, 11/03/2008 - 12:05


Eu gostava de possuir uma pena casta e só dada a gentilezas, esforço-me, naquele artigo, naquela peça, mas o facto de ter nascido no bairro de Além-do-Rio, frequentado a Escola da Estação e morado entre a Rua Alexandre Herculano e a baixa Boavista leva-me frequentemente a retouçar alegremente pelos caminhos da irreverência revisitando episódios da vida dorida e airada no passado dos idos de sessenta.

As fertilíssimas cabeças dos poderes nos idos de sessenta merecem acerados e gargalhados comentários, porque os sicofantas transformaram a cidade – desde o advento do Estado Novo – num couto de velhacarias de modo a fazerem dela um burgo repressor e reprimido, constelado de ordenanças, bailarinos mentais, tropa-fandanga de mão lacerada por tanto bater a pala, beatas de pernas bambas, onde só os pedintes e os loucos de estimação eram verdadeiramente livres. Ora, não me cansando de o dizer para memória-futura como agora está na moda dizer-se, imagine-se o bródio alegre quando tenho a felicidade de partilhar uma refeição com gente do meu tempo. Assim, aconteceu há dias quando almocei com a Maria do Loreto Monteiro. A Loreto para quem ela muito bem quer e aprecia. O restaurante prima por apresentar peixe de alta qualidade a preços sensatos, a amesendação é alegre e simpática e predispõe para o revolver da memória levando-a até a ditar os responsos e a imitar o sacristão Sr. Machado, que não nutria nenhuma simpatia pela rapaziada do coro e menos ainda pelo irmão. Pois naquele mesmo restaurante – apontei a mesa – vi sentado um homem de bons ombros de alfaiate que entre a bota e a calça exibia uns atilhos. Logo lembrei os comércios brigantinos cujas vitrinas exibiam ceroulas e combinações – alguns atreviam-se a mostrar austeros soutiens grandalhões e pudicas cuecas-calças íntimas de mulher, que esta coisa de senhoras é moda mais recente. Os homens orgulhosos do seu pedigree escondiam os ditos atilhos no canudo das meias, os outros deixavam-nos ver de modo a poderem ser considerados como tal, enquanto escutavam os palúrdios da vulgata oficial nos cafés e repartições públicas. Em matéria de ceroulas havia as brancas felpudas sem atilhos e as de flanela riscada a modos de pano de barraca, já no referente às combinações eram um regalo para os olhos adolescentes imaginarem os corpos que cobririam. As caixas das combinações mostravam mulheres maduras e polpudas, bem penteadas e em combinação! Aos censores locais escaparam. As combinações sofreram uma revolução devido ao aparecimento do nylon em cores mais apelativas, com ou sem encaixe. O uso da combinação era obrigatório, daí o escândalo quando prendada mulher de um coronel, ao sair do automóvel mostrou prescindir dela, pois como a saia fina ficou revirada na traseira, a senhora revelou alvas e formosas coxas durante uns instantes que para quem viu pareceram um relâmpago a jamais ser esquecido. Andam por aí mulheres e homens a dizerem e a escreverem palavras floreadas a colocando em causa os investimentos culturais da Câmara, pois desabalada e atrevidamente proponho a criação de outro museu – o do Traje. Não, não se trata de uma imitação, defendo um museu inovador, altamente lucrativo, pela sua configuração, colecções e actividades de todas as índoles, opiniões e movimentos. Figuras e figurões para dar colorido aos conteúdos não faltam, histórias de proveito e mau exemplo também não, móveis e objectos arranjam-se, ceroulas, combinações, camisas de dormir e demais roupa de baixo é tudo uma questão de procurar, sei onde estão alguns pares de polainitos e para escrever e descrever os estilos ainda há canetas, apesar do Zé Monteiro se dizer destreinado. O Zé merece crónica de corpo inteiro, não só por ser historiador sério e íntegro, mas também, precisamente por isso, devido ao modo bem humorado e irónico como lutou contra as muralhas, fossos e barreiras da vaidade corriqueira dos perus especialistas em vénias e requebros de beija-mãos. Nesse texto descreverei o rapto do francês, acto levado a efeito pelo pai e pelo seu tio Abel, homem dos jornais que por desatenção minha tenho deixado no poço do esquecimento. Fica para a próxima!

PS. O Sr. Abel Monteiro pontificava na barbearia do Sr. César, concedia-nos atenção e remoques.