Ter, 05/06/2007 - 11:16
Do outro lado, no prédio do avô da minha amiga Margarida Cepeda ficava o comércio dos ainda unidos manos Gonçalves de Travanca, depois vinha a padaria de cheiros a pão fresco escolhido por uma senhora envolta em bata branca, onde os da oposição em 1958 chaparam um formoso retrato do General Delgado. Os rapazes da Caleja pareciam macacos a treparem às árvores, de ramo em ramo, em frente da gasolineira Mobil, passada a desembocadura da rua do Tombeirinho o nariz recebia pesados odores a adubos vindos do armazém do Sr. Domingos Lopes, sempre coadjuvado pelo pai do Fernando Cepeda, dali a minha ignorância aumentava ao divisar bombons e finezas na mercearia do Sr. Pousa, depois o Sr. Sousa em irrepreensível penteado, mais à frente os tocados e toldados pela pinga faziam bater as portas da taberna do João Francês, logo a seguir cavalheiros de cabelo empastado mostravam-se a sair de luxuosos carros envergando fatos de riscas, casacos aos quadrados e sobretudos lisos. Um luxo. Eram os quadros da alfaiataria do Tirone. A alcunha devia agradar-lhe, subtraída ao galã Tyrone Power, mas não, porque já crescidote ousei apodá-lo de Tirone e ele revelou mau génio debaixo da forma de palavrões que em Lagarelhos seriam devolvidos à pedrada. Um senhor ruivo também não apreciava o tratamento por vermelho, sempre tive o cuidado de o chamar Sr. Poças, mesmo quando praticou desenfreada especulação ao vender-me uma camisa por um dinheirão. Nunca mais lhe adquiri nada. E, defronte lá estava bem escrita: “Casa do Povo”. Tinha uma montra, nela vi piões, não sei bem mais o quê. Presos por fios agarrados a pontos de interrogação metidos em ripas, mostravam-se boinas, chapéus e bonés com e sem orelhas. Aquela casa – do povo – recendia a morrinha pela aldeia. Assim foi durante anos e anos, porque raro era o dia em que não passava e repassava sem me esquecer de soletrar – Casa do Povo – clara afirmação de desposar o povo, ou o seu proprietário não fosse republicano, estrénuo reviralhista e visto de soslaio por legionários e comandita. Mais uns metros andados e ficava o tal lactário que tanta impressão me causou na altura. O autor do elogio ao povo, diligente na afirmação dos seus ideais chamava-se Arina. O Sr. Arina, sempre muito bem posto, primeiro presidente do Grémio do Comércio, teve a desdita de esperar anos e anos pela queda do manhoso de Santa Comba e a alegria de ver implantada a democracia, nela vivendo muitos anos. Há escassas semanas e devido ao Machadinho do Académico, conheci e conversei com um neto. Por um qualquer acaso do destino nunca passei do cumprimento ante o Sr. Arina, o qual para perca da história da cidade não deixou registo do muito que viu, ouviu e pressentiu ao longo de quase um século de existência. Uma pena. Um sociólogo experiente disse:” sempre que morre um velho em África, arde uma Biblioteca.” Não precisava de ir buscar o exemplo a África, por cá neste tempo de prodígios tecnológicos isso acontece todos os dias. Bem sei, as Escolas, os Politécnicos e as Universidades estão muito ocupadas. Uma ova!



