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Casa do Povo

Ter, 05/06/2007 - 11:16


Ao pé da minha casa, as mulheres da aldeia, quando não podiam alimentar os filhos ao seio, recorriam à ajuda de cabras, naquele tempo – 1952, com sete anos, as mulheres de Bragança recorriam ao lactário para o mesmo efeito. A diferença assombrou-me. De olhos esbugalhados soltava saudades por Lagarelhos, percorria receosamente a rua do Loreto, via de imediato os rapazes a olharem-me como cães sabidos a cheirarem o rafeiro aldeão, enquanto me esgueirava colocando o olhar nas montras ou vitrinas, repletas do que não tinha. O Sr. Alcino Lopes mostrava-se afadigado a dirigir os empregados, a outrora sócia, mulher do Sr. Afonso, de pelo na venta fazia o caminho em direcção à moagem onde fiscalizava os pesos e velava pela constância da balança. Passava o estabelecimento do Sr. Monteiro, tentava ler ao contrário o anúncio da Husqvarna, depois levantava os olhos e mirava meditabundo os lábios vivos, vermelhíssimos da mulher de um sargento de Rio de Fornos, quando passava na rua reparava nos seus avantajados pómulos.

Do outro lado, no prédio do avô da minha amiga Margarida Cepeda ficava o comércio dos ainda unidos manos Gonçalves de Travanca, depois vinha a padaria de cheiros a pão fresco escolhido por uma senhora envolta em bata branca, onde os da oposição em 1958 chaparam um formoso retrato do General Delgado. Os rapazes da Caleja pareciam macacos a treparem às árvores, de ramo em ramo, em frente da gasolineira Mobil, passada a desembocadura da rua do Tombeirinho o nariz recebia pesados odores a adubos vindos do armazém do Sr. Domingos Lopes, sempre coadjuvado pelo pai do Fernando Cepeda, dali a minha ignorância aumentava ao divisar bombons e finezas na mercearia do Sr. Pousa, depois o Sr. Sousa em irrepreensível penteado, mais à frente os tocados e toldados pela pinga faziam bater as portas da taberna do João Francês, logo a seguir cavalheiros de cabelo empastado mostravam-se a sair de luxuosos carros envergando fatos de riscas, casacos aos quadrados e sobretudos lisos. Um luxo. Eram os quadros da alfaiataria do Tirone. A alcunha devia agradar-lhe, subtraída ao galã Tyrone Power, mas não, porque já crescidote ousei apodá-lo de Tirone e ele revelou mau génio debaixo da forma de palavrões que em Lagarelhos seriam devolvidos à pedrada. Um senhor ruivo também não apreciava o tratamento por vermelho, sempre tive o cuidado de o chamar Sr. Poças, mesmo quando praticou desenfreada especulação ao vender-me uma camisa por um dinheirão. Nunca mais lhe adquiri nada. E, defronte lá estava bem escrita: “Casa do Povo”. Tinha uma montra, nela vi piões, não sei bem mais o quê. Presos por fios agarrados a pontos de interrogação metidos em ripas, mostravam-se boinas, chapéus e bonés com e sem orelhas. Aquela casa – do povo – recendia a morrinha pela aldeia. Assim foi durante anos e anos, porque raro era o dia em que não passava e repassava sem me esquecer de soletrar – Casa do Povo – clara afirmação de desposar o povo, ou o seu proprietário não fosse republicano, estrénuo reviralhista e visto de soslaio por legionários e comandita. Mais uns metros andados e ficava o tal lactário que tanta impressão me causou na altura. O autor do elogio ao povo, diligente na afirmação dos seus ideais chamava-se Arina. O Sr. Arina, sempre muito bem posto, primeiro presidente do Grémio do Comércio, teve a desdita de esperar anos e anos pela queda do manhoso de Santa Comba e a alegria de ver implantada a democracia, nela vivendo muitos anos. Há escassas semanas e devido ao Machadinho do Académico, conheci e conversei com um neto. Por um qualquer acaso do destino nunca passei do cumprimento ante o Sr. Arina, o qual para perca da história da cidade não deixou registo do muito que viu, ouviu e pressentiu ao longo de quase um século de existência. Uma pena. Um sociólogo experiente disse:” sempre que morre um velho em África, arde uma Biblioteca.” Não precisava de ir buscar o exemplo a África, por cá neste tempo de prodígios tecnológicos isso acontece todos os dias. Bem sei, as Escolas, os Politécnicos e as Universidades estão muito ocupadas. Uma ova!