Qua, 06/02/2008 - 10:25
Para ilustrar esta ideia, nada melhor do que recorrermos a dois ou três exemplos retirados do mundo do futebol.
Evitando correr o risco do exagero, atrever-me-ia a dizer que serão poucos os portugueses que terão dificuldade, em matéria de clubes, de associar as cores vermelha, a verde e a azul, respectivamente, ao Benfica, ao Sporting e ao Porto. E esta marca tinha tanta força simbólica, que não raro se ouvia dizer que, quando qualquer um dos três defrontava uma equipa teoricamente mais fraca, “bastavam as camisolas para ganharem os jogos”.
Esta associação entre objecto – símbolo, entre a “entidade” clube e a cor que a representa, hoje já não faz sentido. Vemos, pois, os ditos três grandes a ostentarem tonalidades que renegam completamente as suas identidades e os seus passados, em nome da sustentabilidade e do desafogo financeiro. Sim, porque quem investe nos clubes, as grandes multinacionais, tem o privilégio de ditar as regras; e, inversamente, os directamente “interessados” são “obrigados” a manter, perante os primeiros, uma postura de completa submissão, de vassalagem medieva, ao ponto de se pôr em causa a razão de ser e o espírito daquilo em que se acredita.
Vejamos. A principal competição futebolística deste país dava pelo nome, até há bem pouco tempo, de Campeonato Nacional de Futebol da Primeira Divisão - o mesmo atribuído aos respectivos escalões hierarquicamente inferiores. Essa designação, de décadas, deu lugar a Super Liga, para, numa outra fase, a definitiva, passar a chamar-se Bwin Liga. Se eu nunca simpatizei com o termo liga, porque, inconscientemente, o associava ao desusado adereço que servia para segurar as meias das senhoras e dos jogadores de futebol, a inclinação pela nova versão é completamente nula.
Também para a mais recente competição nacional, nesta mesma modalidade, foi adoptada a frutuosa filosofia da “subsidiariedade”, ao receber a empolada denominação de Carlsberg Cup.
No entanto, as situações descritas são incomparavelmente menos graves e menos reprováveis do que aquela que se verifica em relação ao equipamento da nossa selecção de futebol, que, confesso, desconheço quem seja o seu patrocinador. O meu filho mais novo, de cinco anos, ele que sabe que as cores básicas da nossa bandeira são o vermelho e o verde, tem-me interpelado acerca do porquê do equipamento da equipa das quinas ser cor – de – vinho. Se lhe parece incoerente que este símbolo da nação seja desvirtuado, o que não pensará quando a equipa de todos nós exibe um equipamento de cor preta, como já tem acontecido algumas vezes!
Vendo esta questão pelo lado positivo (o que é possível), devemos pensar que a inegável tendência para uma sociedade cada vez mais patrocinada, pode ser aproveitada por nós, habitantes deste pequeno espaço geográfico que dá pelo nome de Interior Norte. Ou seja, como a esperança de um futuro risonho para esta região é tímida, porque não há investimento, não há indústria, não há acessibilidades - factores que conduzem ao fenómeno da desertificação -, a atitude mais inteligente e sensata que poderíamos tomar era a de nos “vendermos”, numa espécie de prostituição da alma, às grandes multinacionais.
Neste sentido, atrever-me-ia a sugerir aos manda – chuvas das respectivas sedes de concelho que tivessem a ousadia de submeter as suas terras à inovadora experiência do patrocinato. Modelo que implicaria, naturalmente, uma completa revolução a nível da toponímia. Mas, claro, num tipo de alteração morfológica dos mesmos, baseada já nas regras gramaticais do novo acordo ortográfico, que, entre outras coisas, não contempla, à excepção de meia dúzia de exemplos, as palavras hifenizadas.
Teríamos, então, para Bragança, pelo critério da “capitalidade”, o patrocínio de uma grande multinacional. Esta, em detrimento da consagrada e centenar designação, passar – se – ia a chamar Bragança/Microsoft. As restantes localidades (que, por limitação de espaço, não as poderei mencionar na totalidade) recebiam, na devida ordem, e de acordo com as suas especificidades, as suas “vocações”e as suas carências, os seguintes nomes: Vinhais/Campo Frio (reputada empresa espanhola de produtos transformados); Mirandela/Salsichas Nobre; a sede do meu concelho, isolada da capital, devido ao capricho do rato papialgo, seria Vimioso/Brisa; a cidade “digna de ser olhada” passaria a Miranda/Zara; a vila dos Gorazes, pela significativa actividade de produção de leite, assentava-lhe bem Mogadouro/Agros; a capital da cereja passava a chamar-se Alfândega/Ferrero Rocher; e, por último, a terra da boa maçã, tornar-se – ia conhecida por Carrazeda/Compal.
As próprias instituições públicas teriam, também, julgo eu, algumas vantagens na adesão desta ideia. Estou-me a lembrar, por exemplo, que os problemas de ordem orçamental no ensino seriam resolvidos, se tivéssemos escolas com os nomes de Toural/kinder Delice, Estacada/Matutano, Beatas/Danone, e por aí fora. Tudo isto não deixará de ser utópico. Mas nós, vitimas da Interioridade, não podemos ignorar que uma solução parecida levar – nos – ia a deixar de perder o sono aquando da distribuição das verbas resultantes dos PIDAC`s e dos Quadros Comunitários.


