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A borra dos dias

Ter, 08/04/2008 - 10:35


Os americanos têm uma expressão simples mas eficaz para definir um problema detectado. “We have a situation”, ou seja, temos uma “situação”.

Entendendo-se isso como uma fuga à ordem comum dos dias, uma excepção circunstancial que pode, afinal, degenerar no início de um conflito ou em algo muito pior, ainda.
Lembrei-me disso quando vi, como todos os outros portugueses, o vídeo (ainda disponível no sítio do “You Tube”, no momento em que escrevo) do “enfrentamento” entre uma aluna e uma professora da Escola Carolina Michaelis, no Porto.
Quando vi essas imagens recordei-me de um anúncio publicitário, com cerca de três anos, no qual uma professora – no exigente papel de vítima enlouquecida – tentava desesperadamente escrever uns números no quadro. A muito custo o conseguiu, entre os guinchos e os projécteis que os alunos lançavam pela sala e de que ela ia sendo um alvo pouco intencional, de tal forma a sua presença ali era absolutamente desapercebida. Com o riso desvairado que caracteriza as criaturas alienadas, a professora acabaria por desarvorar da sala, deixando no quadro os números da “sorte grande”. Que, mais do que representarem a felicidade de se saber milionária, significavam, sobretudo, a alegria entontecida de se ver livre daquela gandulagem adolescente.
Se o leitor reconheceu, na descrição que fiz, o filme em causa, lembrar-se-á certamente da reacção que teve quando o viu. E não deixará de confrontar essas imagens e aquilo que elas lhe disseram com a situação ocorrida numa sala de aulas na Escola Carolina Michaelis, no dia 14 de Março, com uma turma do nono ano. O único mérito desse “vídeo amador” está, ironicamente, na sua divulgação, que foi feita pelas razões erradas, mas que acabou por mostrar uma situação cuja visibilidade permitiu reconhecer como real e fazer provocar o choque capaz de desencadear processos de reflexão e, sobretudo, de acção.
Há duas décadas, semelhante situação seria incogitável. E, por favor, não me digam que é por ainda não terem sido inventados os telemóveis, por que aí estaríamos a confundir as causas das coisas. Em qualquer época, sempre houve objectos ou referências a que os jovens deram mais importância sem que isso implicasse a violação de regras de conduta e, essencialmente, de valores tidos como incontornáveis.
Há duas décadas, semelhante situação seria incogitável, sim. É que a autoridade, o respeito (a não confundir com o medo) e a disciplina eram conceitos que faziam parte de um sistema educacional e de modelos sociais que ainda constituíam referências e que os anos (e o que a eles se atarraxou) se encarregaram de transformar. Sucessivos laxismos políticos – de poder laxante – foram acumulando reformas sucessivas, quase equivalentes ao número de governos (estamos no décimo sétimo…), numa fúria de fazer diferente do anterior. Em simultâneo, as mutações sociais foram arrasando valores que passaram a ser vistos como obsoletos. A dar, passaram a estar máximas como: nenhum esforço, todo o efeito; quem não se exibe, não existe; quem não se diverte, não interessa; quem pensa, é perigosamente tonto. Porque imprevisível e pouco permeável ao imediatismo de jogos inconsequentes. Aquele anúncio tal como este filme constituem um perfeito exemplo da mais “banal” indisciplina. Ou, melhor, de “adisciplina”, já que me parece que para haver infracção os conceitos reguladores devem ser minimamente interiorizados. Ora, aquela chusma ululante não terá assimilado coisa nenhuma para além da única necessidade de curtir até cair. E de gozar, de “tásse” bem, de não ter ninguém a chatear. Daí a atitude face à professora, um ser insignificante pela chatice que representa e pela irrelevância com que é olhada.
Quando o Secretário de Estado da Educação Valter Lemos afirma que a indisciplina é um problema que vem de fora da Escola, remetendo esse problema para o conjunto das questões de carácter “social”, parece ignorar o óbvio. Porque a nenhuma cabeça pensante ocorreria imaginar que a indisciplina nasce nas escolas, já que isso seria negar o próprio conceito de Escola. Depois, considerar a indisciplina uma “questão social”, como forma de desresponsabilizar os seus agentes, é incoerente à luz da responsabilização que o Ministério quer atribuir aos professores, quando os avalia pela taxa de abandono escolar dos respectivos alunos. Como se este não fosse – e de que maneira! – um gritante exemplo de problema social.
A indisciplina poderá ser uma questão social que, não sendo devidamente resolvida, descambará em violência. Mas quando ela se verifica na Escola é às escolas que deve ser dado todo o poder não só de denunciar, mas de desencadear e agilizar os processos, para que possam ser punidos e sancionados os agentes infractores.
Muitos professores queixam-se de que o sistema os desprotege face a situações de clara infracção disciplinar na sala de aula (e não me parece que o Estatuto do Aluno, por si, vá resolver o que quer que seja). E aos alunos parece estar sempre reservado o papel de seres inimputáveis, desresponsabilizados e olhados com condescendência. Já se tornaram clássicas as situações – na nossa mesmíssima cidade de Bragança – de paizinhos que acorrem à escola, de mão na anca para desancar o reaccionário do professor que traumatizara o seu adorável rebento que mais não fizera do que dar asas à sua exuberância vocabular. Paizinhos, indignados porque o professor se entusiasmou a marcar trabalhos de casa, prontos a berrar por justiça e pela estação de televisão mais próxima, para fazer já, ali, do seu rapaz o famoso que se segue nos dez minutos de glória do ecrã.
A mim, como mãe e professora, revolta-me que tantos pais – para se desculpabilizarem da falta de tempo e de pachorra em relação aos filhos – optem pela situação fácil e “eficaz” de lhes darem razão em situações de desajuste com a Escola, em vez de procurarem as causas e tentarem encontrar soluções que ajudem os filhos a crescer de forma correcta. Frequentemente armando os jovens de prepotência e arrogância e desarmando-os de responsabilidade e sentido de autocrítica.
À estafada sentença de que, nestes difíceis tempos de crise de valores já batemos no fundo, pode sempre anexar-se a constatação de que o fundo se desloca à medida que tocamos nele.
Mas, corações ao alto: a criatura que filmou a cena “altamente” na aula de Francês do Carolina Michaelis acabou, na sua boçalidade, por prestar um serviço. Lançou a barbárie nas primeiras páginas dos jornais. E é aí que ela deve estar…