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Ano Novo

Qua, 02/01/2008 - 10:55


O que sempre me fascinou foi observar, ver, perscrutar, apreender lendo o rosto das pessoas, seguindo os seus gestos, trejeitos e inclinações. Aprender e reaprender através destes exercícios não é tarefa fácil, além de correr riscos ao criticar ou corrigir severamente comportamentos estribados na preguiça, no deixa andar, naquilo a que Salgueiro Maia apodava de nacional-porreirismo. Por ocasião da passagem de ano, fosse no lar austero e genuíno de Lagarelhos ou nos lugares-comuns de Bragança, sempre prometi a mim mesmo novo comportamento sustentado pela ocultação de sentimentos e opiniões, pois a consonância e convergência redundavam em lucro mais ou menos fácil.

No entanto, desde o fim da adolescência nunca levei a promessa avante, criando enormes dificuldades e famas a mim próprio e perplexidades aos educadores versados na Religião e Moral, apesar da boa vontade do cónego Ochôa sempre atreito a desculpar-me perante todos quantos censuravam o meu livre e quantas vezes decrescido falar. Por ocasião da renovação do Mensageiro, prezado jornal onde também escrevo, ainda esbocei uma tentativa de colaboração escrevendo, certamente muito mal, uma reportagem sobre os ciganos acampados em Espinhoso. Não foi publicada e as minhas veleidades de igualar o barbudo, bebedor de mojitos e caçador Hemingway ficaram destruídas. Vivia em Bragança naqueles anos sessenta emparedado entre os deveres familiares com toda a ganga de representação às costas, transgredia as regras em matéria de namoros e discussões pela noite fora, dando azo a comentários nos quais a hereditariedade é nada porque tudo é meio, mas também neste ponto a doutrina ficava bem tremida, pois a cidade não suportava que os filhos dos pais – senhores pais – colocassem em causa suas senhorias. E, no entanto, os filhos família ou assim designados permitiam-se fazê-lo, cabularem anos a fio, esmifrarem notas positivas através da teia da cumplicidades, gastarem os fios dos dias no polimento de esquinas e cafés, e porque tinham tempo e dinheiro eram exímios nos jogos de salão e bailes de sociedade. Provocavam invejas, mas eles ficavam remordidos ante o facto consumado de os torgueiros ou parolos arrebatarem altas classificações, apesar de mal comidos e pior vividos. Alguns, se não a maioria, dos “distintos” membros desse grupo estão agora colocados na prateleira do esquecimento, porque quando chegaram à rebentação não lograram vencer as barreiras, na maioria das vezes, confinadas às sebentas propícias à mecânica memorização, mesmo assim a exigir adequado esforço, coisa desconhecida nos hábitos dos mimalhos representativos da nomenclatura salazarista e dos negócios. Baldados os esforços na tentativa de me emendar, recebendo em consequência o que não gostava, virei costas a Bragança, aqui lembro-me de Zeca Afonso, e durante muitos anos entreguei-me a uma série trabalhos consideravelmente custosos, mas lembrando Hesíodo, a redundarem em benefícios de toda a ordem e a obrigarem-me a perceber quanto baldados tinham sido os meus desejos no sentido de nos anos de juventude tentar perceber a condição humana nas suas nefandas atitudes e escassas bondades. Tenho por adquirido que o homem é propenso à maldade, noutras paragens – fosse na floresta do Maiombe, em terras açorianas, americanas ou no úbere território ribatejano – comprovei-o inúmeras vezes e fui derrubando os anos com ou sem passas, evitando quebrar taças de fino vidro e com puritano rigor procurei cumprir as minhas obrigações profissionais, mesmo correndo os inerentes riscos por defender a todo transe a Instituição a quem tudo devo, mas de modo a dizer aos meus filhos que posso olhar olhos toda a gente, porque tenho as mãos limpas. Agora, percorro este mundo circundante, regresso a Bragança quando calha, sempre na esperança de em cada pedra, em cada árvore, em cada abraço, em cada olhar encontrar, e encontro, motivos de júbilo e inspiração para escrever crónicas como esta. Aos leitores desejo Ano Novo repleto de alegrias.