class="html not-front not-logged-in one-sidebar sidebar-second page-node page-node- page-node-167301 node-type-noticia">

            

Amores Mudos

Ter, 06/11/2007 - 10:22


Os poetas celebram, nos seus versos, as coisas belas da existência, sem esquecer os amores mudos e as paixões secretas.

Da sua leitura retiro reflexões e detenho-me nas suas intrincadas profundezas levando-me a pensar nos amores cuja expressão não pode ser revelada, por isso são mudos e as paixões secretas a ficarem no segredo dos deuses e dos poetas. Não nomeio poetas representativos da revelação não revelada, prefiro realçar o facto destes amores e paixões na maior parte das vezes descerem à terra acompanhando os ossos de quem os ocultou, sobrando um ou outro mais pressentidos por murmúrios ou sussurros, ficando firmes a confirmarem a sua existência os depositados em diários e cartas nunca remetidas. A mulher de Miguel Torga dedicou atenção à epistolografia de muitos autores, mas no referente a paixões não descobriu nada de extraordinário, os diários na sua maior parte mostram-se reservados na matéria e apenas Maria Filomena Mónica desvendou as suas paixões, provocando algum alarido nos meios literários lisboetas sem daí terem nascido mais obras sérias do género, ao contrário da prática nos países de língua inglesa. Não será preciso, creio eu, sublinhar o facto destes amores mudos e paixões secretas atingirem uma maior amplitude em sociedades fechadas, hipócritas, beatas, invejosas e medonhas em termos de coscuvilhice como era o caso das terras nordestinas até há bem pouco tempo. Um olhar de soslaio, um sorriso esboçado, um levar as mãos à cabeça ou o simples cumprimento dos bons-dias logo dava azo a rosários de remoques, piadas, respondendo os visados conforme podiam, até porque a ironia só alguns a sabiam utilizar de forma conveniente. Debaixo desta capa do fingimento – de pungente fingimento –, percebe-se a dureza dos tempos que então corriam, a aspereza das famílias por causa da “honra”, a pressão de vizinhos intriguistas, tios idiotas, tias onzeneiras, primos ciumentos, mães apoquentadas pelos assomos de raiva e brutalidade dos maridos, pais das raparigas na maior parte dos casos, porque em relação aos rapazes o caso mudava de figura. No entanto, os rapazes também viviam escondidamente as paixões, não ao estilo dos gabarolas sempre prontos a debitarem namoradas sem elas o saberem, mas sim na firme convicção de ser impossível concretizá-las, restando-lhe o poderem olhar, pois incapazes de transporem para a poesia tudo quanto os atormentava, restava-lhes o sonho ou a fantasia. E, todavia, a paixão continuava a roer-lhe as entranhas, acabando por casarem com outras, tendo filhos e vivido a sua vida no quadro de um quotidiano calendarizado pelas feiras, festas, nascimentos, casamentos e enterros. No remanso da lareira ouvi muitas aflorações de amores mudos e paixões escondidas, se eram mudos e secretas, ficava-me a dúvida, mas as vozes de cabeças muito mais velhas asseguravam ser assim, com muita minúcia de pormenores trazendo à corrente da conversa o nome de Beltrana e Sicrana que preferiram ficar solteiras por não lhes ser possível consumarem a paixão. Noutros casos as paixões saltaram da poça dos segredos porque o autor da rejeição não resistiu à tentação da vaidade. Os anos correram na minha vida com inusitada alacridade, releio muitas vezes Dante do amor impossível por Beatriz, só por esse enorme poeta, não posso duvidar da ocorrência de tais amores e paixões na aldeia onde vivi feliz, pois tal como dizia Miguel Cervantes em relação às bruxas – yo no creo en brujas pero que las hay las hay – também eu tenho de acreditar. Mas, acerca das segredadas paixões em noites invernais nada posso dizer porque as esqueci, das outras gostava de saber. Talvez ainda recorra a esse manual de magia cristã que é o “Grande Livro de S. Cipriano ou tesouros do feiticeiro”, do qual possuo diversas edições, uma delas assombrosa pelas ilustrações de Martim Avillez. Mas, sobre tal livro também não faltam contos em Lagarelhos.