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Afinal, Há Vida Em Vimioso!

Ter, 24/04/2007 - 11:45


Foi com indisfarçável satisfação que tomei conhecimento, através dum semanário local, da existência de “Vida”( nocturna ) em Vimioso, sede de concelho de onde sou orgulhosamente natural.

Não é que seja um incondicional defensor da ociosidade nocturna, ao ponto de ser capaz de fazer dela uma causa, ou de me provocar qualquer tipo de inquietação interior. Apenas, porque retenho de Vimioso, desde que a conheço, e até há bem pouco tempo, a imagem duma terra que, por oposição às demais vilas transmontanas, parou no tempo, não evoluiu, onde não – se – passava – nada, entendo que esta súbita transformação deva ser interpretada, por quem nela se revê e com ela se identifica, como algo de extremamente positivo.
No entanto, como é sabido, a rotura com o passado, que resulta, impreterivelmente, da necessidade de mudança, reclamada pela sociedade ( ou parte dela ), nem sempre se opera de forma pacífica. Convenhamos, por muito válidos que possam parecer os argumentos – como sejam os de “pagar impostos” - , de quem se presta à aventura de novos desafios, não deixa, da mesma forma, de ser aceitável que, do outro lado, haja quem, na defesa de valores não materiais, sem preço, possa legitimar e fazer valer os seus direitos.
Pelo que pude depreender do que li a respeito deste assunto, a “matéria substantiva”resume-se ao seguinte: de um momento para o outro, Vimioso, conhecida, em termos de ambiente nocturno, pela sua pacatez rural, vive agora intensos e frenéticos serões prolongados, em consequência da recente abertura de dois ou três bares. Mas, ao que parece, a indignação dos vimiosenses queixosos, por este “exuberante” estilo de vida, não é por causa do horário alargado dos ditos “bebedouros”, nem, tão – pouco, pela sua existência; mas porque os alegados actos de vandalismo, a confusão e o barulho gerados após o encerramento dos mesmos – um fenómeno que, segundo os entendidos, parece generalizado e geracional -, provocados pelo “mau – vinho” de certos clientes, lhes negam o mais que merecido sono reparador, principalmente aos fins – de – semana.
Como não podia deixar de ser, no “fogo cruzado” encontram-se o edil local e a G N R – força de segurança que ali mantém a ordem pública. O primeiro, em virtude de lhe ser “incumbida “ a ingrata tarefa de tentar agradar a gregos e a troianos, é confrontado com uma situação ambivalente: por um lado, por ter a consciência de que a diversão ( diurna ou nocturna ), sendo sinónimo de vida, é um importante factor de dinamização, numa terra em que não é fácil fixar e cativar os jovens. E ele ( factor ), é tanto mais preponderante, quanto sabemos que neste concelho, eternamente esquecido, o progresso, decorrente da criação de riqueza assente no sector industrial, está definitivamente comprometido e hipotecado, devido ao rato papialgo, ao tchintchalarraiz, à folecra, ao morcego e a outras espécies que tais – se bem que esta história está muito mal contada! Por outro, o responsável máximo do concelho, pessoa moralmente bem – formada, precisa de ter a sensibilidade necessária para entender como justos e legítimos os protestos dos munícipes importunados.
Por seu turno, o papel das forças de segurança é, como facilmente se compreenderá, deveras ingrato. Por muito que eu defenda que o teste de alcoolemia se deve cingir, dentro das pequenas localidades, a meras acções preventivas e de sensibilização, não deixa de ser preocupante imaginarmos um individuo a conduzir, ainda que dentro do espaço urbano, sabendo-se que minutos antes se entregou, completamente etilizado, a actos gratuitamente desabridos. E é, naturalmente, este “viver à pressa” e irresponsável, levado ao exagero, que leva, julgo eu, a que seja impossível aos agentes de autoridade fazer “ouvidos de mercador” ou “vista grossa”, em relação ao cumprimento de horário a que se obrigam os respectivos espaços abertos, com prejuízo, claro está, para os seus proprietários.
É inegável que a juventude, dentro daquilo que se entende ser uma etapa natural da vida, precisa de se divertir. Mas de uma coisa não tenhamos dúvidas: seja em Bragança, em Vimioso, ou em qualquer outro lugar, o problema dos bares e das discotecas, ainda que se pense o contrário, nada tem a ver com o estipulado horário de funcionamento. Os conflitos a eles inerentes estão directamente ligados à falta de compostura, à falta de dignidade e aos excessos com que muitos jovens, nos dias de hoje, desfrutam e concebem a noite.
Afora toda esta polémica, suscitada pelas noites agitadas, que, certamente, o bom – senso se encarregará de dissipar, o que, na verdade, se constitui como merecedor de realce é o facto de Vimioso, nesta última década, não obstante os inúmeros obstáculos impostos pela falta de acessibilidades, ter sabido promover e potenciar o seu grande cartaz turístico, que é o inigualável património gastronómico.
A contrastar, pois, com um passado recentíssimo, Vimioso, actualmente, muito por culpa do espírito aventureiro e empreendedor de quem não se resigna perante cenários pouco optimistas, é capaz de garantir uma satisfatória qualidade de serviços (direi, acima da média) a nível de hotelaria e restauração. Há, pelo menos, meia dúzia de unidades, quer dum, quer doutro género, que fazem com que gentes de vários pontos do país e, mesmo, devido à realidade fronteiriça, da vizinha Espanha, ali se desloquem, seja a pretexto da caça, duma qualquer iniciativa, ou por mera visita ocasional, para desfrutar dos muitos encantos da vila e do concelho.
E a procura seria incomparavelmente maior, se os que tiveram a assinalável e meritória proeza de conseguir que Vimioso assegurasse anualmente a presença de atletas de craveira internacional, na prestigiada meia Meia Maratona das Castanhas – cujo evento teve como grandes impulsionadores (justiça lhes seja feita) o Dr Luís Mina e o engº José Miranda, ex – autarcas – tentassem projectar a vila e o concelho, através do pouco explorado, mas reconhecido potencial gastronómico, fundamentalmente a nível do fumeiro – copiando o virtuoso exemplo dos vinhaenses.
Esta, estou certo, é uma “dívida” que, tendo em conta o futuro pouco animador deste e de outros concelhos do interior, se prevê seja saldada, muito em breve, para gáudio de todos nós, naturais.