Ter, 06/05/2008 - 11:31
À primeira vista, devido às apelativas imagens de suporte do referido texto, ocorreu-me, pelo falso patronímico “Filhas de…” e pelo contexto, tratar-se de uma realidade inscrita na Bragança Paulista, cidade brasileira, com a qual, curiosamente, a sua congénere portuguesa mantém relações protocolares e de cooperação a vários níveis.
Qual não foi o meu espanto, quando, no decurso da leitura, me apercebi que esta Bragança que eu venero estava novamente nas bocas do mundo pelos piores motivos. Ou seja, que o fenómeno da prostituição tinha renascido; mas, agora, ao contrário do que acontecia com as “cheirosinhas” que deram origem ao movimento “Mães de Bragança”, esta suposta actividade é exercida, segundo a peça, em pensões e apartamentos.
Naturalmente que a minha indignação, enquanto bragançano, em relação ao subscritor do texto, não é pelos factos em si, apesar de lamentáveis. O que é revoltante é que este tipo, professando o princípio de que “os fins justificam os meios”, escolhe como título “Filhas de Bragança”, quando as protagonistas em causa são brasileiras; o que, aliás, é afirmado pela sua interlocutora, a entrevistada, no terceiro parágrafo da dita reportagem: “As prostitutas, de nacionalidade brasileira….”. Desta forma, e sendo o título da reportagem fraudulento, porque enganoso, custa-me a entender como é que um conceituado semanário permite que este mercenário do jornalismo tenha o desplante e a desfaçatez de ofender e denegrir a imagem das gentes bragançanas.
Imagino que fosse desconfortável para um qualquer cidadão lisboeta, e até motivasse um beliscar de honra, se, por exemplo, em relação ao intencionalmente adormecido fenómeno da pedofilia, um jornalista, na abordagem do tema, titulasse o trabalho de “Filhos de Lisboa”, numa alusão aos pedófilos que frequentam o Parque Eduardo VII. Ou se, num outro nível de perversão, na cidade capital do Norte, se fizesse a cobertura a uma manifestação de lésbicas, sob o título “Filhas do Porto”.
Porque distintos de nós pelos traços inerentes à condição de capitalidade, uma situação desta natureza, que pusesse em causa o bom - nome dos alfacinhas e dos tripeiros, faria, com toda a legitimidade, cair o Carmo e a Trindade. Aqui, a nossa gente, tão honesta quanto resignada, perante esta grave afronta, nada fará para “defender a honra do convento”.
O que é difícil de entender, sendo a prostituição um fenómeno transversal, mas com uma incidência incomparavelmente maior nos grandes centros urbanos, é o porquê de Bragança passar a ser, de um momento para o outro, a Meca da depravação e do desvario.
Contudo, sem precisar do “sábio” contributo da “especialista” nesta matéria, a estudante brasileira que esteve “ a desenvolver um estudo no IPB sobre o Caso das Meninas de Bragança”, o que se pode dar como garantido é que a vampiragem, ávida de escândalos, consegue, aqui, em relação a este tema, garantir mais facilmente o sucesso da notícia, porque esta terra se tornou, sem se justificar, moda com a dispensável “publicidade” dada pela revista Time.
Se este e outros sujeitos pautassem a sua conduta profissional pela seriedade, sentir – se -iam atraídos pelos verdadeiros problemas da Interioridade, porque Trás - os – Montes e, em particular, o distrito de Bragança, constitui uma fonte inesgotável de notícias, o que, a serem divulgadas, os seus autores prestariam um grande serviço quer ao jornalismo, quer a quem com eles se confronta e na pele os sente.
Seria, pois, indubitavelmente mais interessante e honesto que este e outros senhores dessem a conhecer ao país que Bragança é o único distrito do reino sem um palmo de auto - estrada. Seria pertinente uma reportagem sobre o porquê da não construção da barragem das Veiguinhas. Seria importante indagar sobre a razão da “inviabilização” da ponte entre Outeiro e Vimioso. Por último – outras mais se justificariam -, seria importante submeter à reportagem, dando conhecimento a todos os portugueses, a injustiça em relação ao preço do gás, que é o mesmo, por exemplo, no Algarve e em Trás – os Montes, sabendo-se que a realidade climatérica é distinta nas duas regiões.
E porque entendo que a supracitada reportagem é atentatória da honra e dignidade bragançana, faço um apelo ao senhor Presidente da Câmara e ao senhor Governador Civil, nossos legítimos representantes locais, bem como aos plenipotenciários da Magna Assembleia, que, julgo, como pais e filhos de Bragança, se devem sentir ofendidos, para que ajam judicialmente contra o jornal em causa e o respectivo difamante.


