Ter, 15/04/2008 - 11:15
Porque não fugi, toquei a guerra colonial durante vinte e oito meses em Cabinda, porque em tamanino espírito livre em formação ouvi muitas alusões à guerra de catorze – os meus dois avós participaram no conflito – entendi invocar tais lembranças, as primeiras realistas devido à realidade vivida, as segundas magicamente luminosas pelo vinco deixado. A cidade de Bragança sempre teve presunções militares – a Sedan portuguesa – lhe chamou Cunqueiro, nelas estacionaram regimentos e batalhões, por vida disso inúmeras raparigas condenadas a ficarem solteiras conseguiram casar, pela saída empregadora e empolgadora muitos mancebos colocaram em cima dos ombros galões e divisas, já estrelas – alegre e turvamente os coronéis metralhavam-se em surdina – e por isso mesmo poucos a elas acederam. A guerra dos coronéis bragançanos é muito mais mágica e trágica do que as magnificamente contadas por Garcia Marquez, Jorge Amado e outros escritores sul-americanos. Viver a vida e dada a evidência – faltar-me talento – impedem-me de tentar a empresa de escrever acerca desses militares encenadores de mil batalhas de secretaria com forte gasto de munições: presuntos, salpicões, perdizes, orações, missas, bajulações, empenhos e intrigas e cujo desfecho sobrou em proveito para terceiros. As deambulações militares em Bragança durante a guerra colonial passam pelo Batalhão de Caçadores e pela exibição de fardas de combate antes do embarque em direcção à guerra. Verdade seja dita, muitos dos mobilizados tiveram o pudor e o bom senso de se furtarem a tão ridículas exibições sempre pautadas por variadas injúrias à inteligência, dando plena razão a Dixon autor do polémico livro – A Psicologia da Incompetência dos Militares. Participei numa guerra do-faz-de-conta, por isso mesmo pretendo contá-la em livro, o visto e observado tornou-me pessimista acerca da bondade da condição humana e enquanto permaneci no terrunho lusitano a amizade do Francisco Cepeda e do Mário Carneiro suavizaram-me o desconforto, na mata do Mayombe entendi plenamente o sentido hegeliano da astúcia da razão e por isso mesmo esparramei os negros dias da comissão nos jornais, actos e papéis da acção psicológica, enquanto as noites foram preenchidas a jogar a lerpa, póquer e king por o Major Portela Ribeiro ser um aficionado, e muito molhadas com cerveja, brandy e tutti-quanti. Daí, e em relação aos mortos – velei alguns – talvez fosse melhor após um digno e sentido segundo enterro deixá-los em cemitérios apropriados nos países onde tombaram na defesa da nossa Pátria. O luto está feito, além disso houve mortos pulverizados pelos efeitos das minas. Em relação à I Guerra Mundial, em Lagarelhos existiam diversos sobreviventes, o Sr.Venâncio terá sido gaseado – e o Padre Aurélio apesar da condição de sacerdote, despiu as vestes talares e juntou-se aos expedicionários, por determinação de Afonso Costa. As razões familiares de directa envolvência na guerra, mais o ver e ouvir falar o veterano Venâncio enquanto praticava no ferro na condição de seguidor de Vulcano ou Hefesto, produziram grande efeito em termos de imaginário reforçado pelos postais existentes numa caixa lá em casa. Guardo esses postais de tons sépia e verde-esmeralda, nos quais se mostram monumentos franceses e soldados o que me levou a ter um maior respeito por estes combatentes de Lagarelhos, habitantes das trincheiras que conseguiram voltar sãos em termos físicos. Não sei se existe em Vinhais – noutras terras a começar por Bragança existem – algum monumento relativo a tão tremenda guerra. Mas sei avaliar a importância cultural e educacional da evocação desses homens obrigados a participarem numa guerra cruel como todas são, apenas porque a miopia e as paixões políticas os impeliram para lá. E foram muitos os oriundos do concelho de Vinhais. Evocá-los e lembrá-los honra-nos e enobrece-nos.


