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Bragança, Bragança

Ter, 19/02/2008 - 10:47


Quem lembra, ainda, os velhos espaços de Bragança, hoje submersos pela vaga da “modernidade”? Como se as vias transformadas, as rotundas feitas por figurino e os equipamentos estonteantes fizessem parte de um presente que nunca tivesse deixado de o ser, suspenso de um hábito facilmente acomodatício a cada dia que vivemos.

Se o conceito de urbanismo se divide entre o princípio que valoriza os locais – tornando-os atractivos – e a criação de vias de acesso a futuros espaços, então a cidade de Bragança terá conseguido o feito invejável de juntar (para o melhor e para o pior) o aonde e o onde. A uma velocidade quase tão adrenalínica como aquela que o desaguar do túnel na rotunda para Vale de Álvaro permitirá alcançar, depois de uma boa geada brigantina.
E se a pressa de fazer obra de pedra rija se tornou um impulso frenético – é sabido que o betão, enquanto factor básico de perenidade, tem boa cotação no mercado eleitoral – não é menos certo que uma planificação mais reflectida teria permitido conseguir resultados mais eficazes, sem recurso a “segundas vias”. Como foram os casos da Praça da Sé, da zona ribeirinha do rio Fervença, da Praça Camões – descondicionada no seu vazio total – e como será certamente o da central de tratamento de esgotos, despropositadamente localizada numa área de interesse histórico e turístico, junto ao Castelo.
O afã de fazer até mais não se poder – como quem colecciona troféus para exibir – inviabilizou, certamente, a funcionalidade que equipamentos tão necessários como o Matadouro e o Mercado, por exemplo, deveriam ter. Para os quais teria sido fundamental repensar necessidades, estratégias e capacidades técnicas de gestão e manutenção.
Grande parte dos novos espaços da cidade – bem como os que foram requalificados – assumem essencialmente um papel “bonito de se ver”, relegando-se a funcionalidade para um plano secundário. Prova-o a zona envolvente do Castelo – sem animação cultural permanente, sem recurso a investidores capazes de estimular a cidadela com galerias de arte, cafés, bares e lojas de artesanato. Prova-o a ausência de sombra e de árvores em locais de passeio ou lazer, como o Parque Polis e as praças do centro da cidade. Prova-o a central de camionagem que, apesar de atractiva e moderna, não cumpre cabalmente o papel de funcionalidade na forma como (não) resolveu a questão fundamental do estacionamento e do transporte de bagagens. Provam-no, naturalmente, o Matadouro e o Mercado Municipal. Aquele porque a única coisa que conseguiu matar foi a viabilidade de um sector e de uma actividade fundamentais no concelho) e este porque não conseguiu ultrapassar o modelo de “museu” bonito, arranjado, florido com que foi concebido, sem atender às necessidades reais da população.
Na fúria de criar uma “cidade de museus”, haverá, provavelmente, um efeito de dispersão que acaba por prejudicar o Museu Abade de Baçal, que é, efectivamente, um grande organismo de referência de um enorme vulto da região (não esqueçamos que o Museu Abade de Baçal é candidato ao prémio do Museu Europeu de 2008).
Restam equipamentos como as Piscinas Municipais (fundamentais e funcionais); o Teatro Municipal (indispensável à saúde cultural do concelho) e o novo Centro Cultural, Biblioteca Municipal e organismos afins – num edifício harmoniosamente recuperado – que bem podem contribuir para a felicidade dos habitantes do concelho.
Os últimos dez anos – eventualmente confusos, provavelmente corajosos, certamente transformadores – sobrepuseram-se ao marasmo de dois mandatos da responsabilidade do Partido Socialista, ao longo de grande parte dos anos 90. Com perdas e ganhos, cabe aos munícipes avaliar o seu grau de eficácia.

Nota Final – É curioso que o responsável distrital do PS, em mediática sessão, se tenha referido à nova auto-estrada transmontana para fazer críticas ao actual executivo camarário de Bragança, a quem acusa de não gerar desenvolvimento: “uma estrada tanto serve para trazer como para levar pessoas”. Ora, este raciocínio – que oscila entre o míope e o tortuoso – esquece, ou quer fazer esquecer, o papel fosco, baço e acomodado que a própria federação socialista de Bragança tem desempenhado há bem mais de uma década, com a responsabilidade de o seu presidente ser deputado da nação há mais tempo do que seria bom lembrar e tratar por tu o primeiro-ministro, ao que parece.
Nada de novo, portanto, no reino da transmontaneidade.