Ter, 12/02/2008 - 10:32
No entanto, sinceramente duvido do afã anti-cultura do deputado Mota Andrade porque o conheço e sei não ser insensível à criação e inovação em todas as áreas da esfera do cultural. Além disso, ninguém minimamente informado desconhece o enorme valor económico das indústrias criativas alicerçadas na cultura. Eu não exijo aos detractores das indústrias da cultura conhecerem os manuais de economia a ela dedicados, muito menos os trabalhos sobre esta indústria publicado por Adorno, Eagleton ou Chartier – entre centenas de outros –, mas pelo menos deviam ler e analisar os estudos de Carlos Fortuna, Cláudia Moreira ou Maria Manuela Leitão Marques acerca da matéria em causa. Falar por falar, não leva a lado nenhum e obriga os especialistas a sorrirem piedosamente ante o dislate. A cultura é uma poderosa, rendosa e fascinante indústria no sentido de ser, no sentido de existir. A cidade bragançana nos últimos anos dotou-se de equipamentos culturais de tomo, no entanto, faltam outros de modo a transformar-se numa cidade de “buena” vida, refinada e polarizadora de públicos interessados, conhecedores e dispostos a pagar o justo preço pelas representações culturais – gastronomia, múltiplos espectáculos, leilões, antiguidades, provas e actividades temáticas, rotas monumentais e naturais, circuitos paisagísticos – e muitas outras podem ser acrescentadas. Ora, Bragança tem de continuar a consagrar réditos, tempo, trabalho e estudo à cultura a fim de conseguir estabelecer uma programação continuada, consagrada e geradora de receitas de modo a originarem lucro. A cidade necessita de uma livraria digna desse nome, precisa de uma boa galeria de arte, tem de alargar a rede de museus – colocando a ênfase nos temáticos –, sem esquecer a comemoração de acontecimentos, datas e efemérides. Veja-se o êxito de Óbidos. Sim, está perto do mar, tem muralhas, as acessibilidades são boas. Há poucos anos já assim era e não passava de uma vilória pitoresca, enquanto ao lado pontificava a cidade de Caldas da Rainha e mais rente ao oceano está Peniche. E, no entanto, Óbidos transformou-se num “study case”. Na minha opinião os comeres são forte incentivo à movimentação de públicos de todas as idades, por esse facto defendo indústrias da cultura nessa área e a criação de um Centro de Interpretação e Investigação de Artes Culinárias em Bragança. Defendo ainda a reabilitação de edifícios que possibilitem novas ocupações desses espaços – estou a pensar na Moagem Mariano – e permitam um olhar pelo passado de modo a termos o futuro no presente. Independentemente das inclinações estéticas de cada um, permito-me sugerir ao meu amigo Mota Andrade que quando viajar politicamente arranje tempo para olhar, observar, penetrar em espaços onde as indústrias da cultura conseguiram transformar pardieiros em luxuriantes e vivos centros do conhecimento. Sugiro ainda uma ida a Londres para propositadamente flanar e fruir no Wapping Project, esta antiga estação de energia hidráulica passou a radioso fórum de performances e o seu restaurante Wapping Food é uma tentação para os sentidos e um descalabro para a carteira. No caso de estar cansado de Londres, recomendo cidadezinhas onde um único tema as transforma em ponto focal no referente às indústrias da cultura. Talvez Stratford-on-Avon, além da aura de Shakespeare é centro de livros usados. De todos os géneros e tipos. E que tal comer um brioche recheado de paté quente na “A Chacun sa Tasse” e depois ir visitar o Museu de Arte Contemporânea, para avaliar financeiramente a importância da cultura?


