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Entre quatro paredes

Qua, 06/02/2008 - 10:24


Não sei de que posso falar esta semana, do que posso comentar ou do que posso criticar.

Depois de quase uma semana fechado entre as paredes de um hospital, distante do mundo e das gentes, numa vivência tão impessoal quanto se possa imaginar, sujeito às tertúlias dos medicamentos e ao compasso do ping-ping do soro, pouco se pode, na realidade, escrever seja sobre o que for. É por demais desgastante só o facto de estarmos sujeitos ao confinado espaço do quarto onde nos põem, para que a imaginação se ponha a trabalhar e voe para além do horizonte da parede em frente. Passaram-me pela cabeça obras que há muito tempo li, como Viagem à volta do meu Quarto e pensei como seria de facto viajar dali para fora, ultrapassar as grossas paredes e penetrar no espaço aberto, aquele a que normalmente estou habituado e onde me insiro perfeitamente, mas não é fácil essa viagem.
Quando estamos bem connosco mesmos, somo capazes de empreender todas as viagens do mundo e nenhuma nos mete medo. Temos a coragem, a força a vontade da aventura que nos acompanham sempre, mas nestes momentos, essa força desaparece e a coragem esvai-se sem que por isso possamos dar conta. A realidade confronta-nos com premissas diferentes e os valores são outros e nós, não somos jamais os mesmos.
São estes momentos que nos fazem pesar o valor da vida, da saúde, do bem-estar, do conforto, da família e dos amigos. Eu não sei se a vida tem muito ou pouco valor, mas sei que a saúde é a maior riqueza que se pode ter. Não há dinheiro que a pague. Não nos apercebemos disso facilmente. Mas na cama de um hospital, longe de tudo e de todos e sujeito às vicissitudes próprias de uma qualquer doença, aí conseguimos aquilatar o valor desse bem, tão precioso quanto efémero e, que se insere, ele próprio, na própria vida. Esta passa ao nosso lado e por vezes quase a desprezamos e até a maltratamos, nunca equacionando senão a vida em si mesma como se ela pudesse ser singular. No dia em que lhe dermos o tempero necessário, o condimento que lhe dá o sabor, a saúde, aí sim, a vida terá outro tratamento e nós certamente nos aperceberemos do valor que tem esse sal vital.
Envolvido pelo mau estar, pelas náuseas, pelas dores pessoais e pelos gritos dos outros pacientes, alguns sofrendo bem mais do que eu e estando mesmo em situações em que a vida se esgota e se resume à própria essência, que para eles já não é valor equacionável, a vontade de fugir, de sair para o exterior e respirar ar puro em vez daquele ar carregado e malcheiroso por onde viajam vírus e bactérias desconhecidas e invisíveis, é cada vez maior a cada dia que passa. No meio de todo este cenário macabro, esqueci-me de me atormentar ainda mais com o que lá fora se foi passando. Mesmo a Televisão não era o modo de distracção ideal. Os programas são os mesmos, carregados dos mesmos casos patéticos ou impensáveis, de eventos incríveis e de vivências inimagináveis como o caso do INEM e das mesmas afirmações repletas de justiça e verdade do senhor ministro da saúde, ou do problema dos advogados onde o bastonário acusa o governo de tudo e mais alguma coisa. No meio de tudo isto, onde pautam as mentiras dos homens mais responsáveis do país e onde proliferam as acusações aos governantes e onde as respostas parecem estar todas certas e justas, cheias de verdades incomensuráveis, que mais podemos nós dizer? Valerá a pena ainda ver televisão? Nem para distracção serve.
Assim, no meio destas quatro paredes, tudo passa ao lado. É como estar metido num bunker, refugiado de tudo e de todos, qual avestruz, para que nada nos atinja. Bem chega a falta de saúde e a privação da liberdade. Afinal não é só a falta de democracia que corta a liberdade, também a ausência de saúde a depaupera grandemente. A confirmá-lo está o facto hoje confirmado da morte de Suharto da Indonésia. Ditador durante 32 anos, corrupto e com cerca de um milhão injustificável de mortos e com a invasão de Timor Leste, finalmente foi a falta de saúde que lhe roubou a liberdade e da vida que a tantos ele roubou. Nem sequer foi julgado quando esteve doente, sendo a doença o justificativo para não ir a tribunal.
De facto a vida vale o que vale e só a saúde lhe dá o valor que nós nunca conseguimos dar. Prestes a sair destas quatro paredes, ainda me questiono das razões que aqui me trouxeram. Muito se falou de viroses gástricas, mas nunca ninguém foi capaz de afirmar de onde esses vírus provêm. Da água? Do ar? Da terra? Que me interessa agora, depois de estar enfiado num hospital? Agora interessa-me voltar a respirar o ar puro e o cheiro a liberdade, no meio do conforto familiar que tanta falta me faz! Sair destas quatro paredes de onde nunca fui capaz de sair. Agarrar a saúde e a vida que por um instante quase perdi.