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Desonradas

Ter, 15/01/2008 - 11:57


Aconteceu-me, ao ter de estudar determinada matéria, voltar a ler “Romances du Trás-os-Montes”, tendo da leitura retirado o proveito esperado e o prazer de relembrar vozes de todos os géneros que cantavam tais romances conforme as estações do ano e os trabalhos agrícolas a elas atinentes. A linguagem falada – cantada em ritmo pausado – entusiasma, a leitura no meu caso tem o condão de me provocar inúmeras imagens forjadas na realidade local, especialmente quando o tema aborda a honra, a virgindade das raparigas. Neste livro a cantora Maria Cândida Nunes de Tuizelo, alude à desonra, veja-se o seguinte excerto retirado da “Morte de Dom João de Castela:” – Deixo Dona Isabel, / há doze anos enganada. / Já deixo aí vinte contos / para essa desgraçada. / Tu que dizes, meu filho, / vinte contos não é nada! A honra de duma menina / com dinheiro não é paga…”

Uma rapariga desonrada, zabada, transformava-se numa vergonha para a família, sendo frequentemente maltratada pelos pais e irmãos e objecto de escárnio nas zangas da parentela, só lhe restando na maioria das vezes sair da aldeia em procura de nova vida. À rapariga enganada não era dada a possibilidade de justificar o acto, restando-lhe o consolo de algum familiar mais terno e esclarecido, ou a desonra ser reparada através do casamento com o sedutor e/ou com algum rapaz de bom feitio, capaz de nos primeiros tempos suportar as piadas e os sorrisos de mofa de homens e mulheres. Na actualidade o tema perdeu importância, em determinados círculos é encarado como uma curiosidade, merecendo comentários jocosos, lembrem-se da frase escrita em muitas paredes: “ A virgindade provoca o cancro. Vacina-te.” As transformações sociais e mentais que ocorreram na sociedade portuguesa levaram a que pelos menos nos centros urbanos o exercício da sexualidade seja encarado como uma vulgaridade, mesmo quando é praticado na adolescência e não provoca espanto aos mais velhos, quantas vezes pais ou avós. Apesar de assim ser, dizem-me ser frequente o recurso aos cirurgiões a fim de recriarem a virgindade a sexos já usados e não estou a falar de práticas dessas no Cairo, Amã ou Marraquexe. Por esses lados as coisas fiam muito fino, sendo o “pecado” punido selvaticamente, quando não com a morte da moça. Nesses tempos de opróbrio as raparigas tinham de ir encher os cântaros às bicas da fonte, o marulho das águas ajudava à conversa, os caminhos escuros metiam medo e os rapazes encarregavam-se de os dissipar usando destramente as mãos e os “fados” ajudavam ao desenlace. Por todas as razões e mais algumas o cultivo da memória é sustido pelo bom-senso, a impedir-me uma realidade biográfica mais viva, nem ela acrescentaria fulgor a estes cantares, os leitores não deixarão de estabelecer o nexo entre o escrito e o simplesmente avivado, mas não esqueçam os desgostos, as lágrimas e o desvalimento porque passaram tantas e tantas donzelas que deixaram de o ser por amarem e depois foram rejeitadas. Tais desonradas faziam parte do quotidiano de todos até aos anos sessenta, mesmo na cidade, era uma realidade descrita e comentada em diversos tons, sons e registos, não faltando acerados actos contra as estigmatizadas, especialmente quanto elas revolviam a chaga ao voltarem a pecar, entenda-se engravidar – do mesmo ou de outro. A literatura está prenha de romances, contos e novelas onde a desonra é tratada debaixo de todas as formas, especialistas diversas áreas do conhecimento fazem o mesmo, mas no meu entendimento, estes romances trazidos à liça Anne Caufriez são ímpares para o correcto entendimento do tema. Faça o leitor o favor de o confirmar, lendo o livro em causa, porquanto nas Escolas Secundárias do Nordeste, certamente, será objecto de estudo e adequado comentário. Ou não?