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Lugar como o de Janeiro

Ter, 08/01/2008 - 10:51


Tenho uma confissão a fazer: era suposto este texto olhar para a míngua de água que espreita Bragança e, eventualmente, para outras recorrentes misérias com que o ano novo é invariavelmente olhado de soslaio, porque – para azar dele e nosso – é sempre no Inverno que o recebemos.

Mas, credo, começar 2008 com resmunguices não é coisa que me pareça muito auspiciosa. Além disso, agora que alguma chuva já começa a querer esplanchar-se por aqui, recomenda-se que fechemos mais a boca e cerremos menos os olhos. A ver no que dá.
Por isso, embora não esteja cientificamente comprovado que a ano novo corresponde nova vida, apeteceu-me extravasar muitas borbulhas de optimismo e boas convicções, já que as boas intenções foram todas despachadas para aquele sector mais quente …
Estamos em Janeiro e atravessamos um período especialmente cinzento e desencantado. O frio aperta, a chuva desperta, o défice diminuiu, mas a angústia aumentou. A carteira ressente-se dos excessos natalícios e os últimos cartuchos da euforia enlatada da época gastaram-se com o Reveillon. O moral das tropas está rasteiro, sem luz que brilhe no escuro agora que se apagaram as do pinheiro. Os mais afoitos, para entorpecer estas nostalgias das pós-festas, lançam-se desenfreadamente na corrida aos saldos, prolongando a saga dos embrulhos. Os mais descompensados de trocos afundam-se no sofá, diante de novos concursos televisivos ou de velhas telenovelas novas.
Entretanto, lá fora os passarinhos ainda não fazem os seus ninhos…
Mas, bolas, Janeiro na cidade é certamente muito mais do que isto. É geada, eu sei. Vento, pois é. Neblina, sim senhores. Mas como diz uma velha máxima exportada pelos americanos: “Se não os podes vencer, junta-te a eles”. Juntemo-nos aos elementos. Elementar, meu caro leitor. Fundamental é não suportar o Inverno na esperança de que a Primavera há-de chegar um dia. Ou correremos o risco de viver o presente em função do futuro. Ou, pior, de nos limitarmos a “existir”, apenas. Como todas aquelas pessoas que carregam resignadamente o fardo de cada dia de trabalho, suspirando ansiosamente pelo “idílico” fim-de-semana. E que, chegadas a sábado e domingo, consideram sempre que esse par de dias não corresponde às expectativas e anseios que foram gerando ao longo da semana. O que, naturalmente, as lança num abismo duplamente frustrante que as faz sentirem-se defraudadas perante aquilo a que chamam “a vida”.
Quem não quer ser lobo que não se ponha a uivar à lua. Aqui em baixo há muito para ver, fazer e muito com que ter prazer.
Contra a preguiça do espírito e a moleza do corpo: madrugar, madrugar. A sério. É a melhor forma de fintar a pequenez dos dias de Inverno. E ao sairmos para a rua, vemos o mundo como se estivesse pintado de fresco. Cheio de pequenas novidades, como o jornal que está a chegar a essa hora.
Uma das grandes alegrias que existem no acordar cedo é sentir que nos tornamos cúmplices do dia, companheiros da estrada que percorremos lado a lado. E é bom ir tomar um café a um café quase vazio, onde somos recebidos com um olhar meio fechado e um sorriso já aberto. E é bom sentir esse tempo que é todo nosso porque passa devagar, como num relógio digital. E é bom voltar a sair para a rua e ver, sem pressas, as casas que nem olhamos nos dias em que corremos à procura de um tempo perdido. E é bom descer a rua, experimentar a calçada, seguir sempre em direcção ao rio. Ou por essa cidade acima. Que tem tanto para oferecer quanto nós desejarmos nela descobrir.
Sobretudo, é preciso conhecer esse desejo para o sentir vivo. E nos atirarmos a essas manhãs frias mas tranquilas, onde descobrimos a nossa paz.