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As libras de Natal

Ter, 18/12/2007 - 10:58


Os meninos ainda não sabiam que a vida é feita de contrastes e desequilíbrios, mas sabiam sonhar acordados enquanto numa imitação de podengos rondavam o café do Sr. Machado, sito discretamente na Praça da Sé.

A estrela falada pelos astrólogos não os tinha fadado com riqueza, quando apanhavam ou recebiam alguma moeda confraternizavam com ela durante muito tempo, acariciando-a solenemente, revolvendo-a com a ponta dos dedos a modos de perceberem as nervuras das caravelas, quinas ou escudos, dedicando-lhe olhares tristes no momento de dela se separarem em troca de um bolo de arroz. O melhor local para os meninos da Escola da Estação encontrarem moedas era nas “profundezas” dos cavalinhos e imediações das cadeiras voadoras, mas tal maná só durava enquanto decorriam as festas da cidade, no trabalho de pesquisarem o tesouro eram quadrúpedes, trípedes e bípedes, não lhes importava a posição, interessava-lhes arrecadarem moedas deixadas cair pelos festeiros. Mas onde isso ia? Estávamos em Dezembro, as montras cultivavam tons verdes, vermelhos e amarelos pelo efeito de luzinhas à volta dos vidros, conferindo tons mágicos às garrafinhas de chocolate, aos bombons, aos rebuçados e às libras em ouro. Principalmente às libras, muitas libras a transbordarem de uma grande taça de vidro. Os meninos gastavam os dias de férias, os trabalhos encomendados pela Dona Aninhas estavam concluídos – tinham de estar – as deambulações pelo reduzido território citadino levava-os, invariavelmente, junto às vitrinas repletas de confeitos, guloseimas, bolos e o bolo de Reis que tem uma história a principiar nas Saturnais e passou na Idade-Média a ser associado à festa da Epifania. O menino vindo de Lagarelhos, bisonho, desconhecedor dos revelins e poternas da cidade, a expressar-se num português atamancado ou de socos, nada da História de bolos e doces sabia, qual pastor em busca do Menino-Deus percorria o passeio em frente do café Machado, de olhos grudados nas libras. Pouco lhe importava se aquelas douradas e refulgentes libras mostravam a carantonha da Rainha Vitória ou de Eduardo VII, o vício original da penitência peripatética residia no facto de ter cismado em possuir uma mão cheia das redondinhas moedas de chocolate. O Sr. Machado fazia lembrar um machacaz silencioso, olhava os meninos de forma inexpressiva, saudava a clientela – clientela selecta diga-se em abono da verdade –, familiarmente entre piadas e palmadas nas costas de cada um. O menino apreciava o modo desenvolto dos adultos a tirarem notas da carteira, sozinho a representar o acto de comprar um taleigo de libras, não se importava de possuir uma nota verde de vinte escudos. Um dinheirão em 1953. Mas não tinha! Veio o dia de Natal, pela manhã percebeu que o Menino tinha deixado uma camioneta de madeira, um saquinho de rebuçados e a “História do Príncipe com orelhas de burro” com vistosa capa amarela, edição Romano Torres. E as libras? Nada. O burro com orelhas de príncipe seria eu, como uma vez apodei Miguel Esteves Cardoso, nesse tempo não sabia retocar frases, li enfadamente a história, pois os desejos imaginados estavam defraudados. Talvez o Menino acabasse por ficar embatucado devido a ter-se esquecido das libras, porque à hora do almoço o Sr. Dias enriqueceu-me a mão com cinco escudos. À tarde, resoluto, entrei de queixo levantado no café e pedi cinco coroas de libras. Pois então! Recolhi-as, uma logo derreteu devido ao calor do abraço dos dedos, cautelosamente retirei o chocolate e fui visitar na Sé o rechonchudo e risonho Menino Jesus. Enquanto Lhe agradecia, saboreei o chocolate, tendo tido o cuidado de passar a língua diversas vezes pelos intervalos dos dentes, enquanto as outras libras relampejavam pelo efeito das luzes que O iluminavam. Bom Natal.

PS. Esta crónica é consequência de num livro escolar ter encontrado espalmadinhas duas capas dessas tão desejadas libras.