Ter, 04/12/2007 - 10:41
Lembro antes de mais o facto de quando o conheci devia ter uns seis ou sete anos, nunca ter privado com esse homem de pelos hirsutos no queixo, desconfio de um arremedo de bigode, pele sulcada por traços negros de sujidade muito ao gosto da época nas camadas mais pobres e desprotegidas, apesar de alguns donos de bons pedaços de terra e vacas em sextuplicado também mostrarem alegre conflito com a higiene, sem esquecer o popularizado pelas novelas – bafo de onça, e ainda o ter colocado o Carracó no cofre das recordações há largos anos. Sendo assim, e é, ele veio de cima em recente conversa com o meu tio Álvaro, ao lembrarmos tempos de outrora marcados a escopo e cinzel por uma persistente carestia, quando não fome a provocarem toda a casta de “visões dantescas” às suas vítimas – a maioria da população – do Nordeste transmontano. Pois esta figura vinhaense a merecer entrada nos “Anais de Vinhais” (como se eles existissem), vendia sardinhas na época delas. Andava de aldeia em aldeia, sabia quais as casas onde sempre lhe abriam a porta e quantas sardinhas cada uma das clientes lhe comprava. A história da alimentação destas paragens está alicerçada em destreza, agilidade, experimentação e agudeza de espírito. Os alentejanos têm a fama de serem os grandes estrategas neste campo, pois os nordestinos não lhe ficam atrás nessa matéria, pela simples razão da necessidade aguçar o engenho. Os alentejanos enriqueceram as suas receitas recorrendo a toda a sorte de produtos de origem vegetal e animal lembrem-se as ervas cheirosas, os ouriços-cacheiros, os caracóis, a sopa de cação, a couve recheada, a sopa de labaças, a sopa de cardos, a massa de azeitonas e por aí fora. Nas aldeias das terras de Trás-os-Montes também se recorria a muita espécie de ervas para alegrarem e darem substância aos comeres, e não só para chás, enquanto em matéria de animais o texugo, a raposa, a cobra e até o burro mamão objecto de acidente davam origem a salientes petiscos a fazerem esquecer por algum tempo a persistente e atroz “traça” a atormentar miúdos e graúdos. Ora, é neste pérfido quotidiano que se encaixa o sagaz vendedor, o qual exprimia todo o seu vigor persuasivo na esperança de aumentar a quantidade de aquisição, ao estridentemente dizer: minha senhora estas sardinhas são grandes e boas, são autênticas éguas. Éguas.” A conotação com as éguas entende-se perfeitamente, porque as fêmeas do cavalo além de serem muito requestadas pelos senhores padres e todos quantos gostavam de montadas mais dóceis e seguras, distinguiam-se pela sua nédia opulência, mesmo quando ainda não tinham atingido a plenitude rabeira. As sardinhas saltavam da caixa para uma travessa e logo de seguida eram fritas, provocando salivares nos felizes contemplados e esgares nos vizinhos desinquietados pelo forte cheiro proveniente do preparo culinário. Os relatos da divisão de uma sardinha por três ou duas pessoas – autêntica égua, presumo – fazem parte das rememorações dos mais velhos, felizmente nunca sofri tal apuro, no entanto, elas são registo de épocas onde a pobreza atacava a esmo, obrigando à recuperação de todo o tipo de produtos. Estas evocações estão-se a perder, especialmente no que tange às quantidades e modos de preparação, sendo substituídas pelas varinhas mágicas, o frigorifico e o vendedor de pão e bolos todas as manhãs. O progresso é evidente, ainda bem, no entanto, ao evocar o Carracó faço-o na perspectiva deste jornal ser um depositário de uma epistemologia acima das conveniências de momento, das acções e actividades inçadas de vanidades e farândolas destinadas a fazerem disparar as máquinas fotográficas electrónicas, pois às “foto-lato” aconteceu-lhe o mesmo que aos ratinhos, já ninguém se lembra delas. Os ratinhos, sim os filhinhos dos leirões, fritavam-se envolvidos em ovo, dando-se aos meninos e meninas que em plena primeira adolescência ainda mijavam na cama. E os colchões de palha ou folhelho não aguentavam tanto banho de ácido, além de muitos bichinhos serem atraídos a eles devido ao odor.


