Ter, 27/11/2007 - 10:52
Outra das profissões de que ainda hoje me recordo era a de taberneiro. Sempre que me era permitido, era lesto a acompanhar o meu pai à taberna. Tenho a lembrança das mesas onde esperavam pratos, copos e jarras em barro, sempre prontas a receberem os fregueses que o taberneiro atendia, às vezes com bons modos, outras nem por isso. Era vê-los, aos taberneiros, nos dias de feira sem mãos a medir para atender tanta gente.
Havia tabernas que eram sítios de culto, não pelo local em si, mas pelo dono. Veja-se o caso do Verbo que era a alma do lugar assim como alguns dos fregueses que a frequentavam como o “Fininho”.
Os carteiros, arautos de boas e más notícias, eram aguardados ansiosamente por todos; eram amigos e confidentes. E era incontornável que se esperasse pelo carteiro à janela, que como um qualquer Maraton percorria vários quilómetros por dia para levar as boas ou as más novas. Quando se lhe antevia um telegrama na mão era, quase sempre, prenúncio de desgraça. Louvo a justa homenagem feita no largo dos Correios. É sem dúvida uma mais valia da cidade.
Na minha rua, a Caleja, éramos visitados todos os dias pela leiteira que ia entregar o leite a quem o podia comprar e também pelos carvoeiros que todos os dias desciam da Lombada, com os seus burros carregados de carvão, para abastecer a cidade. É justa a homenagem feita na rotunda da avenida do Sabor aos homens e mulheres que dedicavam a vida à árdua tarefa de fazer o carvão.
As mulheres dos lavradores que todos os dias iam vender os seus produtos ao Mercado Municipal contribuíam para a tipicidade do nosso mercado e era um gosto ver o formigar de gente que por ali deambulava à procura dos melhores produtos que deveriam ser comprados por pouco dinheiro, nesses tempos, como agora, um bem escasso.
Os nossos comerciantes de então, tão diferentes do que hoje se conhece, conferiam uma tipicidade única ao comércio tradicional, para o bem e para o mal…
Havia, então, tantas e tantas profissões que hoje entraram em desuso por não se considerarem dignificantes ou porque, pura e simplesmente, os tempos são outros e não há tempo para as coisas simples que poderiam servir de mote para uma qualquer tese de Doutoramento e que tanto marcaram a minha vida.
Figuras houve, algumas ainda por cá andam felizmente, que povoam a minha memória e me fazem sorrir deleitado com a sua forma única de viver e encarar a vida. Já referi o senhor Verbo e o “Fininho”, mas não posso esquecer o senhor Queirós, o Michelin, o senhor “Ravel”, o Gardel, o senhor Cachimbo, o Domingos (que tirava uns finos de beber e chorar por mais), o Zé Gomes, o Cunha, o Tóni das bicicletas, o Germano, o “Sachola”, o Chico “Naireco”, o Chapeleiro, o “Troula” ou Zé das gravatas, o “Guto”, o Dr. Rodrigues, o Zé Luís o engraxador, o Carlinhos da Sé, o “Larival”, o Serafim, a Gualdina, o Salazar, o “Lézinho”, enfim, tantas figuras que marcaram e algumas ainda marcam a nossa vida, uns pela sua inteligência e singular sentido de humor, outros pela sua “estranha forma de vida”.
Esta viagem pelas minhas recordações mais alegres faz-me reviver os melhores tempos da minha vida, os mais despreocupados, os mais leves e bem dispostos e também, julgo poder dizê-lo sem me enganar, os mais puros. Pena é que hoje em dia não se dê valor às coisas simples da vida.
Para terminar, quero apenas chamar a atenção para a falta de nome das pequenas travessas que ligam, por exemplo, as Costas Grande e Pequena e outras que felizmente resistem, típicas das zonas mais antigas da nossa cidade. Uma pequena placa referenciadora do seu nome, relativa ao local em que se inserem que até poderá ser o nome pelo qual são popularmente conhecidas, basta. Nunca é demais referir que são estes pequenos detalhes que nos distinguem nesta imensa aldeia global.
Marcolino Cepeda


