Ter, 20/11/2007 - 10:33
Nas sociedades arcaicas, pagãs, ela era a Deusa-Mãe que dava e mantinha a vida e era venerada em cerimónias de reconhecimento e gratidão. Aí, o significado da palavra religião, (o de ligação), não tinha ainda perdido a pureza original. Os homens sentiam-se ligados ao meio que os cingia. Mas, ao mesmo tempo, na nossa memória primitiva, temos ainda gravado o medo que ela nos inspirava: tenebrosas florestas infestadas de feras predadoras, enormes montanhas carregadas de segredos perturbadores, massas de água intransponíveis, o céu e os astros irremediavelmente distantes e misteriosos. Mais ameaçadora ainda era a súbita ira dos elementos: raios e trovões, tremores de terra, cheias, secas, ventos ciclónicos, erupções vulcânicas, acontecimentos imprevisíveis e devastadores que a cada momento ameaçavam, como sempre, trazer destruição e morte. Nessas eras primordiais, a sua sede de sangue e aniquilação pareciam de tal modo evidentes que os sábios do oculto, temendo os seus acessos de mau humor, se lhe antecipavam com o sacrifício de animais e homens.
E desde sempre, como consequência, o íntimo desejo, a obsessão de a controlar, de a domesticar ou mesmo de a aniquilar. Mais tarde, já no tempo histórico, inventaram-se mesmo sistemas de crenças que davam uma legitimidade divina a esses profundos anseios. O mundo material foi aí então desvalorizado em extremo com a invenção de um além imaginário criador (a verdadeira fonte da vida) e reduzido à condição de local de desterro, de condenação. Mesmo assim, o homem assumia-se como o centro da criação, a obra-prima de Deus. Segundo esta perspectiva, os animais e as plantas, a terra inteira, teriam supostamente sido criados apenas para o servir. Era implicitamente aceite que os outros seres não tinham direito a existir por si sós. A sua existência justificava-se apenas na medida em que nos alimentavam, vestiam, satisfaziam os caprichos, estavam ao nosso serviço, serviam de passatempo, davam lucro.
Estava assim dado o eterno mote que iria permitir o abuso sobre todos os organismos, todas as criaturas, em relação aos quais o bicho-homem exigia o direito de posse, reclamava o privilégio de decidir da vida ou da morte. Contudo, até há duzentos anos atrás, os propósitos de dominar o meio não podiam passar disso. Só desde então para cá, a partir do aparecimento das máquinas, e com a explosão demográfica, o perigo deixou de ser potencial e a ameaça se tornou realidade.
Na segunda metade do século passado, as ciências da ecologia, tomando em parte o lugar da ancestral religiosidade, começaram a alertar o mundo para o perigo. E nas últimas três ou quatro décadas soou mesmo o alarme. Compreendeu-se, de forma aguda, que a destruição do ambiente vital só podia levar à nossa própria destruição. A partir daí expressões tais como poluição, desastres ecológicos, limitação e delapidação dos recursos naturais, consciência ambiental, desenvolvimento sustentado e muitos outros, passaram a fazer parte do vocabulário corrente de todas as línguas. Felizmente, o grau de preocupação com a saúde da Terra tem aumentado para um cada vez maior número de pessoas. Os meios de comunicação social têm-se entregado a um esforço notável para nos mostrar a beleza desta frágil entidade celeste, única, variada, habitada por milhares de seres preciosos, muitos dos quais ainda desconhecidos, cuja existência está por nós ameaçada. Hoje, os princípios básicos da ecologia começam a estar presentes nos programas escolares de todos os países, o que revela a preocupação de formar os jovens dentro de um novo espírito no que diz respeito à forma de encarar o fenómeno da vida como um todo. Renasce a esperança.
O perigo, contudo, está muito longe de ter sido afastado. Por um lado, os grandes e pequenos interesses económicos, que lucram com a destruição, vêem-se ameaçados e não desarmam com facilidade. O mais inquietante são as mentalidades, as atitudes, os hábitos arreigados de desrespeito que persistem em demasiadas pessoas relativamente a tudo o que mexe, e não só. É visível o choque, o desfasamento, entre aquilo que a Ciência vai descobrindo e o tempo que os seus conhecimentos demoram a aplacar os instintos básicos, os medos irracionais, as velhas e resistentes superstições.
(continua)
Manuel E.G. Pires


