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O Serviço! O Serviço, Senhores!

Ter, 20/11/2007 - 10:22


Alguns leitores deste jornal sabem dos meus trabalhos em torno da história da alimentação, artes culinárias, análise e crítica de restaurantes.

Ando nesse labor há mais de vinte anos, sempre atravessado por ásperos pontos de referência e ingratos travejamentos, porque poucos admitem a crítica mesmo envolta em pedagogia consequente, enquanto a maioria não conhece, nem quer conhecer a posição do filósofo ante a verdade e Platão. O peripatético terá dito: sou muito amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. Sem esperança de ser bem compreendido, entro de chofre na matéria. É do serviço nos restaurantes que vou falar. Não fulanizo, convido o leitor a tentar descobrir as máculas, convido-o também a exercer uma permanente acção de modo a os restaurantes do Nordeste melhorarem o atendimento dos clientes, de forma a fidelizarem públicos e tornarem mais apetecível a visitação do território. Vejamos: entro num restaurante, acomodo-me na mesa – espero pelo cardápio. Uma menina chega ao pé de mim, não me cumprimenta e qual mensagem publicitária, solta: “os pratos do dia são, também temos isto e aquilo, mas demoram mais a fazer.” Peço o cardápio, a lista de vinhos também. Estrago o trabalho da menina. O ambiente fica turvado, a refeição correu mal. Noutro restaurante, muito badalado, depois de amesendado, escolhidos os comeres, peço determinado vinho – dali a pouco chega à mesa, mas a garrafa já vem aberta. A senhora minha companhia franze a testa, teme o pior, não profiro palavras coloridas, opto pelo silêncio. À saída murmuro: os críticos devem andar doidos ou estão cegos. Novo restaurante: é ruidoso, as toalhas e guardanapos são de papel, o serviço desembaraçado até demais: o empregado chega até nós e expectante diz: então você já escolheu! Você, na minha terra é uma besta. Em vez de explicar a aleivosia tratamental, porque a contracção de vossa mercê só deve ser usada quando existe adequada confiança, o senhor ou a senhora são os termos correctos, levanto-me e deixo o “Você” de cara à banda. Os outros parceiros da não-refeição gargalham, proferem palavras impublicáveis, vamos a um dos restaurantes onde somos sempre bem recebidos e tratados. Mais um restaurante: assegura confeccionar receitas tradicionais, acreditamos. Desculpamos a incomodidade das cadeiras, os guardanapos de papel estilo mini-toalhetes, a televisão gritadora e a má educação da rapariga quando lhe pedimos para baixar o som, tudo desculpamos porque queremos perceber prazer gustativo e ilustrar reminiscências culinárias. Engano puro. As ditas receitas tradicionais não passavam de arremedo. Enquanto decorria a refeição fui obrigado a suportar as ironias dos meus filhos, eles deviam ter ficado calados por não terem aceite o meu convite para nos retirarmos ao ver-mos as entradas colocadas em cima da mesa. E, naqueloutro restaurante ouço o dono a gritar na cozinha, em determinada casa de comeres a travessa cheia de salada é colocada na mesa de forma estridente porque a solicitei a destempo, ali e acolá as casas de banho exibem imundas nódoas e deploráveis toalhas. Não vou continuar a recapitular trabalhos e obrigações. O leitor depreenderá que só tenho torpezas a referir? Nada disso, reportando-me só a Bragança, sei muito bem quais são os restaurantes capazes de me concederem júbilo, alegria e redobrado prazer palatal. No Geadas, ainda há dias apreciei, devidamente, uma perdiz de truz e deliciei-me com as torras em azeite, enquanto o Sr. Adérito me elucidou sobre as dificuldades que atravessa a restauração. Delicados e sápidos são os filetes de polvo confeccionados no restaurante “Lá Em Casa”, o Sr. António, num instante, da cartola tira suculento petisco e um vinho de estalo, pena ele ser tão Andrade, e no Dom Roberto, o arroz de perdizes com um pedacinho de malagueta e não piripiri é exaltante, pena o Eça não andar por cá, refiro-me ao de Queiroz, além disso o Alberto enquanto inunda a mesa de expressões pecadoras, tem sempre uma história pródiga em gargalhadas para contar e fraternalmente a saboreamos deixando algumas orelhas a arder. Já me esquecia: o Machadinho do Académico tenta a todo o transe suster as minhas iras contra o estado da “Nação”, levando-me após o prândio a lavar os olhos na noite bragançana. Atenção: o facto de elogiar estes restaurantes não me retira capacidade crítica, o Machado sabe disso, mas neles vejo boas louças, vidros e cutelarias a condizer, toalhas e guardanapos de qualificado tecido, higiene e simpatia sem subserviências. É o serviço, é o serviço, caros leitores. Sobre o papel de quem nos recebe num restaurante falarei noutra crónica.