class="html not-front not-logged-in one-sidebar sidebar-second page-node page-node- page-node-166379 node-type-noticia">

            

A Leste da Feira

Ter, 12/06/2007 - 10:20


Num poema de Ary dos Santos, escrito há trinta anos, Carlos do Carmo cantava assim: “Vou pela rua desta lua / que no meu Tejo acende o cio / vou por Lisboa maré nua / que desagua no Rossio. / Eu sou um homem na cidade / que manhã cedo acorda e canta / e por amar a liberdade / com a cidade se levanta”.

Hoje, em 2007, Bragança, também cidade, tem um rio que lhe foi devolvido. Era essa, julgo eu, a imagem representativa do programa Polis que pretendia abençoar as cidades de média dimensão com uma reestruturação paisagística que visava aconchegar o rio e embalá-lo ao ritmo das manifestações quotidianas das populações em causa. Assim uma coisa bonita que nos fazia pensar, inconscientemente, numa sequência do filme “Aldeia da roupa branca”, com os inevitáveis peixes cor de prata (“que o sabão não mata”) ou numa cena do inesquecível “Esplendor na relva”, com uma Natalie Wood eternamente jovem, como símbolo de um futuro radioso. Tanto mais radioso quanto mais futuro.
Há dias, de costas para a Feira do Livro, estive sentada em frente à escadaria que marca, em cicatriz, o monte do Polis. E olhei o movimento circular do repuxo de água, que reforçava o carácter concêntrico das duas pontes que se unem para o interior do polisvalente. O rio que fluía, inquieto, até à cascata, traía o silêncio calmo de um percurso de tardes mortas, alheado dos dias de Verão.
Porque o Polis não gosta do calor nem do sol a pique. Antes prefere os dias de Outono, frescos a qualquer hora, quando não se faz necessária uma das sombras que por ali não existem. Porque a quem serve, durante os meses quentes, todo aquele espaço? É que uma área como a do Polis – com as suas características e os objectivos com que supostamente foi criada – deve servir para todo o dia de todos os dias. E não apenas para abrigar os raros “certames” que por ali sejam acomodados numa logística capaz de enfrentar as vicissitudes da meteorologia.
Sempre sensível ao calor, a Feira do Livro foi remetida, este ano, para os claustros do novo Centro Cultural, em frente ao Polis, junto ao Jardim António José de Almeida. Atendendo à variedade dos locais que têm albergado a Feira do Livro, ao longo dos anos, não se percebe se a finalidade é diversificar ou apenas ir experimentando para ver o que resultará. Ora, tendo em conta que esta actividade vai na sua 18ª edição, parece-me que a organização já deveria ter conquistado um espaço físico que o público associasse à Feira e que contribuísse para a sua fidelização.
A triste e encravada Praça Camões parece ter sido desobrigada dessa função, a julgar pela experiência do ano passado. Cujo fracasso não terá sido alheio às limitações esperadas de um espaço impensado: sem sombras, de dia, e sem luz, de noite. Curiosamente, a disfuncionalidade desse local torna-se ainda mais gritante quando se observa que a placa que, na Praça da Sé, anuncia a Feira do Livro está colocada junto à viela de acesso à Praça Camões. Qualquer munícipe interessado em visitar a Feira, ao olhar para o local vazio, seria levado a crer que ela já teria terminado. Ou seja, a inutilidade do espaço da Praça Camões torna-se mais evidente quanto mais se nota que a sua função não vai além de local de passagem.
No recinto da Feira, confirma-se que os expositores mantêm a funcionalidade das últimas edições, permitindo uma relação directa do público com os livros. Porque, neste contexto, quem vê capas não vê necessariamente corações e é fundamental o contacto com todos os sentidos alerta.
Positiva foi, também, a valorização dos escritores – os de certo! – da região, como Amadeu Ferreira, o “pai” do Mirandês e um dos maiores responsáveis pela sua expansão; e Pires Cabral, grande divulgador da alma transmontana e galardoado com vários prémios nacionais, entre os quais o D. Dinis, no ano de 2006.
Porém, julgo que a adesão pouco significativa do público à Feira do Livro – apesar das boas condições meteorológicas, ao serão – terá tido origem na falta de divulgação relativa ao evento e à sua localização. Aliás, parece-me que a noite mais concorrida terá sido a do dia 5 de Junho. Justamente aquela em que, antes da morna “conversa” com Sérgio Godinho (que a organização não soube desenvolver nem aproveitar devidamente), foi apresentado o livro de contos, escritos por crianças da cidade, “Um baú de histórias”, publicado em parceria pela Junta de Freguesia da Sé e pelo Jornal Nordeste, a partir de uma ideia da jovem Daniela Teles. E que constituiu uma excelente forma de estimular a escrita criativa, pelo incentivo à leitura e à produção de originais, junto do público mais jovem. Esperemos que este tipo de iniciativa contribua para criar leitores mais fortes, mais fiéis e mais interventivos, que possam formatar positivamente as edições futuras da Feira do Livro.