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Sobre o Dia Mundial da Criança

Ter, 05/06/2007 - 11:20


Por intervenção da Federação Democrática Internacional da Mulher, os Estados Membros da Nações Unidas escolheram, em 1950 – na ressaca da Segunda Guerra Mundial, cujas consequências se manifestaram um verdadeiro drama para as crianças de todo o mundo, e cujas proporções deram a conhecer, entre outros, o terrível flagelo da fome e do duro trabalho infantil, de sol a sol -, o dia 1 de Junho como o consagrado a todas as crianças do planeta, independentemente da raça, cor ou religião.

Comemorado essencialmente nos países ditos civilizados, o Dia Mundial da Criança tem como objectivo primeiro levar a sociedade a reflectir, uma vez que seja, sobre o complexo e inesgotável universo infantil, bem como responsabilizá-la pela inobservância, de um modo geral, dos mais elementares direitos que assistem à “gente se palmo e meio”, consagrados pela Convenção de 1989.
Decorridos 57 anos após a simbólica data de 1950 – e depois de se ter desmistificado a crença milenar de que as crianças eram “adultos em miniatura” e “criaturas desprezíveis” – chegamos à triste conclusão de que este largo período de mais de meio século, preenchido pelo empenhado esforço de todos quantos se envolveram, de corpo e alma, nesta causa tão nobre, se tem revelado, perante as expectativas criadas, pouco animador; ou seja, com resultados que estão longe de atingir as metas pretendidas, devido ao espírito materialista e ao egoísmo do mundo civilizado.
É evidente que a realidade é diversa, se falarmos de crianças pertencentes a países do Terceiro Mundo, ou das se inscrevem no espaço geográfico do mundo desenvolvido. Durante, pois, este considerável período de tempo, o que a realidade nos mostra é que as crianças do vasto continente africano são, grosso modo, incomparavelmente mais desprotegidas do que as do mundo ocidental. Neste, a mortalidade infantil, por falta de assistência médica e por outros factores outrora considerados devastadores, é irrelevante; nem, salvo raras excepções, se morre à fome. Em contraponto, nos países africanos milhares de crianças diariamente deixam de abraçar a vida, por não terem comida e pela falta de medicamentos.
As “nossas” crianças, as que vivem no lado menos mau deste planeta dividido em dois, ainda que lhes sejam proporcionados os seus mais elementares direitos, não têm muitas razões para estarem satisfeitas com a sociedade a que pertencem. Embora haja quem esteja convencido de que a satisfação plena da criança só se cumpre quando se consegue preencher o seu repleto mundo de fantasia, ao que, sem qualquer esforço mental, se associa o irresistível gelado, o algodão doce, os balões, os palhaços, as histórias de encantar, etc., a verdade é que, por estranho que possa parecer, ela torna-se muito mais vulnerável, quando a sua dignidade é posta em causa, do que quando a confrontamos com o “não” impeditivo de alcançar a recompensa material.
Nesta perspectiva, não posso deixar de considerar que o Dia Mundial da Criança põe a nu a hipocrisia da nossa sociedade. Basta, para o confirmar, recordarmos, por exemplo, o que foi o vergonhoso escândalo de pedofilia da Casa Pia, em 2003. Quatro anos depois da “bomba “ ter rebentado, o resultado é que, das inúmeras pessoas “supostamente” envolvidas e pronunciadas – todas elas poderosas e influentes -, ninguém está preso, a não ser um pião, para tentar calar as bocas do mundo.
O que mais me perturba, sempre que as crianças são abusadas sexualmente, independentemente do contexto em que eles ocorrem, é que a escumalha dos pedófilos e dos violadores (não excluindo, naturalmente, os agressores), que cometem crimes nojentos e monstruosos sobre quem, por si só, não se consegue defender, são, à luz duma sociedade perturbada e de ideias pouco sustentadas e contraditórias, elas próprias as vítimas. As crianças, esses seres sensíveis, meigos e inocentes, por outro lado, na opinião dos representantes dos criminosos e de certos pedopsicólogos formatados para jogar na táctica das conveniências, são mentirosas, porque fantasiam a realidade.
Da experiência reclamada pelas centenas de fraldas que já mudei, as crianças só mentem, quando da mentira conseguem retirar dividendos. E nunca, em caso algum, o fazem com intenção de incriminar quem quer que seja; não tivessem elas, como mais ninguém, um grande sentido de justiça!
A homenagem que faço questão de prestar a todas as crianças, não apenas no dia que se convencionou ser o seu, mas todos os dias, é de lhes reconhecer que se delas dependesse o destino do mundo – por serem puras, por não mentirem (no sentido atrás referido), por não terem maldade, por serem justas, frontais, não hipócritas, etc., – ele seria tão animador e reconfortante, quanto a inocência do seu riso.

NB: Porque o assunto o justifica, e pela oportunidade, não posso deixar de dispensar o meu reconhecido tributo ao Jardim – Escola das Cáritas de Bragança, pela forma exemplarmente carinhosa como tratam os filhos dos outros -ignorando a condição social dos progenitores –, desde o seu responsável, Sr.Frias, às Educadoras e Auxiliares, passando por aquelas pessoas que, não tendo responsabilidades educativas, desempenham tarefas demasiado importantes para serem ignoradas.